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O Tau


O símbolo "TAU" em são Francisco e na História




"Quando vier o Espírito Santo da Verdade, ele vos conduzirá à verdade
plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudoo que tiver ouvido e
vos anunciará as coisas futuras."(Jo 16,13)

As duas línguas bíblicas originais, hebraico e grego, possuem nos
seus alfabetos a letra "Tau" (T). Este sinal gráfico adquiriu ao
longo dos séculos conteúdos enigmáticos e ocupou um lugar de destaque
na vida e atitudes de São Francisco de Assis, que o usou
frequentemente e, mais ainda, tributou-lhe uma espécie de culto.
1 - Emblema e assinatura de São Francisco
O uso do Tau por São Francisco certificado pela testemunha ocular,
Frei Tomás de Celano, que assim escreve na sua obra: "...Frei
Pacífico começou a ter consolações que nunca tivera. Viu, diversas
vezes, coisas que ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São
Francisco marcado na fronte com um grande Tau, que tinha a beleza de
um pavão, por seus círculos multicores." (2 cel, Nº 106). O sinal do
Tau era-lhe preferido acima de todos os outros: ele o utilizava como
única assinatura para suas cartas e pintava-lhe a imagem nas paredes
de todas as celas.


A escolha do Tau como carimbo e como emblema para a nascente Ordem
dos menores indica a importância que São Francisco atribuía a este
sinal. Além disso, este costume assumiu rapidamente o aspecto de
culto, e isto é um fenômeno revelador, pois desvenda toda a riqueza
de uma certa espiritualidade.
A dimensão devocional, quer dizer afetivo e religioso, destacou um
outro biógrafo de Francisco: São Boaventura, que fala do uso do sinal
em caráter de assinatura: "O tau era um sinal muito querido do Santo.
Recomendava- o muitas vezes, fazia-o sobre si mesmo antes de iniciar
qualquer trabalho e o escrevia de próprio punho no final das cartas
que ele enviava, como se quisesse pôr todo seu empenho em imprimir
esse tau, segundo a palavra do profeta (Ez 9,4), sobre a frente
daqueles que gemem e choram seus pecados, de todos os verdadeiros
convertidos a Cristo Jesus" (Leg. Men. Cap. 2, Nº 9).
Sintetiza-se neste pequeno escrito, ao mesmo tempo simbólico, toda a
orientação do apostolado de São Francisco: "Ele mesmo o recomendava
muitas vezes por palavras e o escrevia (...), como se sua missão
consistisse, conforme a palavra do profeta Ezequiel. Posteriormente
explicaremos o que esta frase de Ezequiel possa significar para
Francisco."


Para São Francisco o Tau não era apenas a assinatura pessoal. Frei
Tomás de Celano informa que o santo usava-o como marco nas portas e
muros das celas dos frades. Fazendo-nos pensar no Livro do Êxodo,
segundo o qual o sinal da salvação era o sangue do Cordeiro nos
portais. Para nós e para São Francisco, o sangue do cordeiro é o
sangue do Cristo crucificado que nos remiu.
A informação de Celano, referente às inscrições nas paredes das celas
é confirmada pelas descobertas arqueológicas. Durante a renovação da
Capela de Santa Madalena, em Fonte Colombo, foi encontrado, na
abertura da janela, um Tau pintado em cor vermelha, ao lado do
Evangelho. A pintura é dos tempos de São Francisco.
Uma rápida revista a respeito da letra Tau na vida de São Francisco
seria incompleta sem mencionar um milagre depois da sua morte,
operado por São Francisco. Falam disso a "Legenda Áurea", e Tomás de
Celano no "Tratado dos milagres", mostrando o culto do santo para com
o "sinal da salvação": "Na cidade de Cori, na diocese de Óstia, um
homem tinha perdido completamente o uso da perna, e não conseguia de
modo algum caminhar e mover-se. (...) Comovido com tais implorações,
lembrando os favores recebidos, apareceu de repente o Santo ao homem,
que nem podia dormir. Disse-lhe que veio a seu chamado trazer-lhe
remédio para a cura. Tocou a parte doente com uma varinha, que
portava sobre si o sinal Tau. Logo se rompeu a úlcera e, recuperada a
saúde, ficou impresso naquela parte o sinal do Tau" (nº 159).

2 - Influências diretas
a - O concílio Lateranense IV
Durante o Concílio Ecumênico, realizado em Roma no ano 1215, o papa
comunicou a todos os prelados ter concedido a Francisco e aos que
quisessem imitá-lo, a aprovação da vida e da Regra evangélica.
É neste mesmo Concílio que aflora o simbolismo do Tau. Inocêncio III
inaugura o Concílio com uma fantástica pregação que imediatamente
adquire uma larga repercussão. O fio condutor são as palavras de
Cristo: "Ardentemente desejei comer esta páscoa convosco" (Lc 22,15).
Lembra que "páscoa" significa "passagem" e faz votos que o Concílio,
a nova Páscoa, dê início à tríplice "passagem": corporal, espiritual
e eterna. A "passagem" corporal seria a armada e a recuperação de
Jerusalém; a "passagem" espiritual deveria ser a mudança de um estado
de coisas para outra, ou seja a conversão, a reforma da Igreja
universal; enfim, a "passagem" eterna significa a passagem para a
verdadeira Vida, com o auxílio dos sacramentos, principalmente a
Eucaristia.


A Segunda parte da pregação, referente à passagem espiritual, é o
enérgico comentário ao capítulo nono do Livro de Ezequiel. O papa faz
suas as palavras de Deus ao profeta: "Percorre a cidade, o centro de
Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram
devido a tantas abominações que na cidade se cometem" (Ez 9,4), e
acrescenta: "O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e a sua
forma representa a cruz, exatamente tal e qual foi a cruz antes de
ser nela afixada a placa com a inscrição de Pilatos. O tau é o sinal
que o homem porta na fronte quando com todo o seu ser revela a
irradiação da cruz; quando como diz o apóstolo crucifica o corpo com
os seus pecados; quando diz: `Não quero gloriar-me a não ser na cruz
de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo foi crucificado para
mim, e eu para o mundo'(...). sejam portanto os mestres desta cruz!"
Assim soava o apelo, o clamor às consciências e corações para a
mobilização geral, para a cruzada de conversão e penitência.
Francisco acolheu este apelo. O simbolismo do Tau e as suas ligações
com Ezequiel foram bem conhecidos de Inocêncio III, como também do
povo da época. No seu tratado sobre o sacramento do altar, afirma que
a letra Tau é o primeiro sinal no cânon da missa começa com as
palavras: "Te igitur" no qual ocupa por desígnio da providência
divina e não humana, toda a página, e isto tem um significado
simbólico: a inicial que na sua forma gráfica lembra a cruz, é "sinal
de penitência e salvação, confiado pelo Senhor ao ministério
profético de Ezequiel".
A reação de Francisco à pregação de Inocêncio foi espontânea. Acatou
como um apelo dirigido diretamente a ele. O papa dizia: "Alcançarão a
misericórdia aqueles que usarem o Tau, sinal da vida penitente e
renovada em Cristo". Francisco quis então marcar a si e aos seus
frades com este sinal, que com o tempo tornar-se-á a marca da Vocação
da ordem.


O tau dará o colorido a toda à espiritualidade de Francisco, que a
partir de 1215 mais ainda aparecerá como espiritualidade da cruz e da
salvação, o que demonstram, entre outros, as suas orações,
principalmente "Ofício da Paixão do Senhor". O Tau da penitência é o
tema preferido da sua pregação. Sentia-se interiormente mobilizado
pelo papa a esta cruzada.
Queria que os frades propagassem entre o povo a missão da conversão
evangélica, isto é, da "passagem de Cristo". O Tau da vida
sacramental, principalmente da vida eucarística (terceira parte da
pregação do papa Inocêncio) também será objeto das suas
preocupações. "Viver em penitência e receber o Corpo e Sangue..." são
dois inseparáveis conceitos que frequentemente aparecem nas cartas de
Francisco, escritas depois do Concílio. Além disto, as consequências
das resoluções conciliares são visíveis em muitos aspectos da vida do
Santo. Por exemplo, na "Carta aos clérigos" (redação segunda),
versículo 11, que fala do dever de conservar o Santíssimo em lugares
dignos e sob chaves, é simplesmente a fiel reprodução do cânon do
Concílio.
O Tau é também o sinal dos vitoriosos. Francisco é bem consciente
disto. Primeiro prega o Tau e depois reproduz no seu corpo (estigmas)
e brilha da alegria que brota do amor é a cruz.
b - Irmãos de Santo Antônio Eremita
A escolha do emblema do Tau por Francisco corresponde à linha de ação
traçada pelo Concílio Lateranense. Nesta escolha influiu mais um fato
determinante: o encontro de São Francisco com os Irmãos de Santo
Antônio Eremita, chamados popularmente de antonianos. Para explicar
isto, percorramos um caminho um tanto longo, com cuidado pelos
detalhes.


A primeira questão que devemos resolver é: que lugar ocupam os
leprosos na vida de Francisco. Os leprosos eram antes de tudo um
mistério que Francisco observava e contemplava. O zelo por eles é o
elemento constitutivo da sua espiritualidade. Para ele, como para os
contemporâneos, o mistério de Cristo leproso era bem familiar e
interpretado de várias maneiras: na liturgia (no ofício lia-se o
cântico do Servo de Javé segundo o profeta Isaías: "Nós o reputávamos
como um castigado" Is 53,4; na arte (escultura, pintura, vitrais
apresentavam Cristo com traços de leproso); enfim, a literatura que
expunha a famosa lenda se São Juliano Hospitaleiro, carregando nos
ombros não o leproso, mas o próprio Cristo.
O fato de São Francisco chamar os leprosos de seus irmãos cristãos,
decorre de um profundo e místico conceito. Viu neles o Cristo
sofredor. Ele vai mais longe: da contemplação passa para a ação.
O "prólogo" da conversão de Francisco é o famoso beijo depositado no
rosto de um leproso.
Em Assis havia o leprosário "Casa Gualdi" sob os cuidados dos irmãos
cruzados. Francisco permanecia lá e cuidava dos doentes.
Existia um hospital onde Francisco ficou por mais vezes: Hospital de
Santo Antônio, em Roma. É esta a igreja que liga Francisco aos
antonianos, chamados também de irmãos hospitaleiros, por serem eles
os mantenedores deste hospital.
A tarefa principal dos antonianos foi cuidar dos doentes,
principalmente dos leprosos.


Os antonianos tiveram o símbolo do Tau com emblema, sinal de
pertencer à congregação e símbolo da vocação caritativa. Usavam a
bengala, que era, na parte superior, em forma de Tau e o hábito no
qual era visível este sinal... Alguns historiadores afirmam que os
antonianos escolheram este sinal somente porque Santo Antônio Eremita
foi representado na escultura com a bengala com uma haste vertical ou
com o bastão em forma da letra Tau. A verdade é bem diferente. O
culto procedia da iconografia. A aceitação do Tau, semelhança da
cruz, está ligada a toda uma mística e atividade caritativa. O fato é
que o Tau como símbolo da saúde entrou na consciência e na cultura
religiosa do povo há muito tempo. Já em 546, durante uma solene
procissão organizada por São Gall, bispo de Clermont, para afastar a
peste no sul da França, nos muros de todas as casas e igrejas
apareceu o "sinal reconhecido pelo povo como Tau", e a epidemia
cessou. O fato é narrado pelo historiador Gregório de Tours, que
vivia na época.
No encontro de São Francisco com os antonianos, em 1209-1210, é
possível enxergar um importante elemento, ou talvez um primeiro
estímulo que provocou no Santo a devoção para com o sinal do Tau. E
tudo o que foi dito acima torna compreensível uma das tarefas que
Francisco traçou para a sua ordem, isto é o cuidado terno e atento
pelos infortunados e doentes: "(todos irmãos) devem estar satisfeitos
quando estão no meio dessa gente comum e desprezada, dos pobres e
fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua"(Regra não-bulada,
Cap.9).

3 - Influências secundárias
Tendo já conhecido o que significava o Tau para Francisco,
aprofundemos agora o sentido místico deste sinal. O esforço da
pesquisa terá caráter de um tipo de "penetração" nos caminhos da
tradição, sem perder de vista a finalidade principal de reconstruir
uma atmosfera espiritual que envolvia São Francisco, reconstruir os
elementos do seu universo, perceber, do jeito como ele e seus
contemporâneos perceberam, toda a riqueza mística acumulada ao longo
dos séculos, relativa ao Tau. Descobriremos conceitos, idéias,
representações que perderam para nós a eloquência, enquanto que
naquele tempo eram bem familiares. O simbolismo de letras e números
era compreensível a todos e era tema largamente explorado pelos
pregadores, pela arte e pela literatura.
a - O simbolismo gráfico do Tau
A forma gráfica da letra Tau (T) tornou-se, ao longo dos séculos, a
base da teologia da cruz, desenvolvida pelos judeus, Gregos e
comentadores latinos.
Para os judeus, a antiga letra "T", em sua grafia primitiva, tinha a
forma de cruz: "x" ou "+". A forma da letra, na escrita hebraica,
sofria transformações até receber, pouco definida a forma de um
pórtico. Contudo, ainda São Gerônimo (+420) sabia que o antigo
sinal "T" possuía a forma de uma cruz: "Para os judeus, e também para
os Samaritanos, ainda hoje o `Tau', a última letra do alfabeto, tem a
mesma forma da cruz que os cristãos marcam nas suas frontes e usam
como proteção"(PL 25,88).
Falando em Tau, que para os cristãos lembra a forma da cruz, vale a
pena citar as palavras de Cristo antes de ser crucificado: "Se alguém
quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc
8,34). Os apóstolos não podiam interpretar a frase como referência à
cruz de Cristo, instrumento de castigo romano. A cruz, da qual fala o
Mestre antes de ir para Jerusalém, é simplesmente o sinal da fé
(atitude interior da qual a expressão externa é a imagem), quer
dizer, do amor e apego à Lei (à Torah, que se inicia com a letra Tau)
e sinal de ser de Deus. Somente depois da sua morte as palavras foram
interpretadas à luz do sofrimento.
A comunidade cristã assimilou o Tau como cruz, mais ainda: colocou o
tau em relação com a cruz de Cristo.
Para os gregos a letra Tau também possuía a forma de cruz. A letra
grega ;e formada pelo traço vertical, semelhante a letra iota (i) e
pelo traço horizontal chamado "Kereia". Por isto muitas vezes à luz
da cruz foram interpretadas as palavras de Jesus: Passarão o céu e a
terra, antes que desapareça um Jota, um traço da Lei. (Mt 5,18)
Até para os Gregos descrentes em Cristo o Tau representava a imagem
da cruz, naturalmente não a imagem da cruz de Cristo e sim, o
instrumento de castigo dos escravos. Explica isto Luciano de Samosta
(+200). Os gregos crentes e não-crentes, olhando o Tau, davam-lhe
ainda outro significado, desconhecido para nós. Visualmente a letra
representa a vela ou o mastro do navio. Não surpreende, então, todo
este florescer "náutico" da exegese do Tau. Esta interpretação
inspira-se na forma visual do sinal e é permeada da reminiscências da
literatura. Recorre nela o fio da "Odisséia", que fala de Ulisses
segurando desesperadamente o mastro do navio. Daí nasce a
representação da cruz em relação à epopéia nacional dos gregos da
cruz como a última "tábua da salvação" durante a tempestade.. .
Para os latinos a letra Tau não existe, mas todos os comentadores das
Escrituras acolheram a tradição anterior. Os Enciclopedistas, temos
p.ex. Isidoro de Sevilla (+630), os exegetas e pregadores populares
basearam-se, para as suas interpretações, no fato de que a letra
hebraica e grega "Tau" possui a forma da cruz.

Estas considerações permitem penetrar mais profundamente na
mentalidade religiosa de São Francisco. Quando falava do Tau, ele
também pensava na cruz de Cristo. Espontaneamente interpretava o Tau
com os seguintes conceitos: sinal e símbolo eficaz da salvação para
todos os que desejam ser com ele marcados. Sabia que desta maneira
seguia as pegadas de uma longa tradição, a qual ao longo dos séculos
anunciava, inclusive através dos escritores não-cristãos, o Cristo
Redentor e Vitorioso pela Cruz.
b - O simbolismo numérico do Tau
Tendo conhecido a grafia, a forma do Tau, passamos à aritmética, aos
valores numéricos do sinal.
Para compreendermos o simbolismo aritmético, precisamos saber que nem
sempre se expressavam os números com os sinais numéricos. Os antigos
desconheciam os números que hoje nós usamos com herança dos Árabes.
Conheciam apenas o alfabeto, para formar as palavras e para registrar
os valores. Aqui está o fundamento daquele cruzamento entre as
palavras e os valores numéricos, a sofisticada e enganadora acrobacia
praticada pelos discípulos de Pitágoras, tão sensíveis a língua dos
números. Vergílios, antes de São João, foi fascinado pelo famoso
símbolo numérico 666. Até os mais simples sabiam que as letras do
nome de Davi, somadas, significavam o número 14. No nome Iesous, liam
888, e em IN 13, e com tanta rapidez como hoje nós lemos valores de
dezenas de milhões. Surgiu até um ramo da ciência que se dedicava a
estabelecer as relações entre letras e números, oferecendo as chaves
e abrindo as portas para a compreensão das alegorias aritméticas.
No alfabeto grego a letra Tau representava o valor 300. Para os
cristãos do círculo da cultura grego-romana, o Tau significava ao
mesmo tempo o sinal da salvação e o número 300 que ocorre na Bíblia,
espontaneamente trazia à tona o Tau, colocando-o no contexto da
salvação ou da vitória. Explicaremos este simbolismo aritmético nos
três exemplos.


A Arca de Noé
"Deus disse a Noé: `Faze para ti uma arca de madeira resinada (...).
E eis como a farás: seu comprimento será de trezentos côvados'". (Gen
6, 4-15)
O fragmento citado tem para muitos comentadores um profundo
significado, pois permite construir a "náutica" e a simbólica
numérica cristianizadas. Entregam-se, então às complicadas
especulações para descobrir o sentido místico dos trezentos côvados.
Orígenes explica que a arca é a balsa salvífica que prefigura a cruz
salvadora, pois o número 300 é igual a Tau, que é igual a mastro com
a raia, que por sua vez é igual a cruz.
Na arca pode ser encontrado, com depois em toda a tradição, o duplo
simbolismo, duplo sentido dialético da letra Tau; é ao mesmo tempo
sinal de vida e sinal de morte; a vida eterna é dada aos homens pela
morte de Deus do homem crucificado no madeiro. Percebemos que São
Francisco jamais separou, na sua espiritualidade, Jesus condenado à
morte do Cristo "glorioso e bendito pelos séculos". Ainda no início
do século XIII, a tradicional interpretação da arca ocorria até na
liturgia e assim se perpetuou na mentalidade popular. Sem dúvida,
Francisco cantava o seguinte hino litúrgico: "Ligno crucis fabricatur
(Arca Noe qua salvatur) Mundus a miseria" Da madeira da cruz foi
construída a arca de Noé que as;vará o mundo da miséria (Analecta
Mymnica, Leipzig 1890, VIII, 29).


Servos de Abraão
"Abraão, tendo ouvido que Lot, seu parente, ficara prisioneiro,
escolheu trezentos e dezoito dos seus melhores e mais corajosos
servos, nascidos em sua casa, e foi ao alcance dos reis até Dan."
(Gen 14,14)
De que modo o Tau, valor numérico 300, entrou na interpretação dos
trezentos e dezoito servos? Prestemos atenção às explicações do
Pseudo-Barnaba (+ cerca de 130): "Saibam que a Bíblia, assim
transcreve o número 318: INT, que equivale a IN 18 3 T 300. Dezoito
como número equivale a IN e assim tens i início do nome de Jesus. A
letra Tau, equivalente ao valor 300, anuncia o advento da graça pela
cruz. Nas primeiras letras temos alusão a Jesus, na última, à sua
cruz ".
Semelhante exposição encontramos entre os latinos, com p.ex. em
Ambrósio (+397): os servos de Abraão constituem a figura dos futuros
cristãos; seu número prefigura a cruz e o nome de Jesus; a vitória
deles é a vitória da Graça, graças à qual foram escolhidos: "Escolha
318 para te ensinar que o que conta não é o número, mas a eleição. E
escolhe 318 fiéis que acreditam em Jesus e em sua cruz, porque os 300
fiéis significam a letra grega Tau e 18 representa IN, que quer dizer
Jesus".
Nesta ocasião é mister lembrar o culto franciscano do nome de Jesus,
paralelo ao culto do Tau. São Francisco, ao culto do Tau, acrescentou
o lírico e muito medieval culto do nome salvífico de Jesus: "Os
frades que conviveram com ele sabem, que estava todos os dias e
continuamente falando sobre Jesus, e como sua conversação era doce,
suave, bondosa e cheia de amor (...). possuía a Jesus de muitos
modos: levava sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos
ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os outros
membros. Quantas vezes ao sentar-se para almoçar, ouvindo, falando ou
pensando em Jesus, esquecia-se do alimento corporal e, como lemos a
respeito de um santo: "Vendo, não via; ouvindo, não ouvia". Este amor
pelo nome de Jesus e pela sua forma gráfica, encontra-lo-á dois
séculos depois, o mestre, em São Bernadino de Sena. A palavra INS é a
mais antiga forma abreviada de Jesus (que se encontra nos manuscritos
e nas lápides sepulcrais) é IN, iota e eta, duas primeiras letras do
nome de Jesus.
Vemos de modo claro que até os pormenores da história são analisados
sob a ótica alegórica. O esforço constante em descobrir o mistério
escondido por trás dos números. É uma tradição que Francisco
enriquece ao seu modo; é o fluxo de idéias e conceitos que formam o
clima do século XIII.
O Tau de Ezequiel
"Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na
fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na
cidade se cometem" (Ez 9,4).
O que foi dito a respeito deste texto, seja falando do sermão de
Inocêncio III, seja da forma da letra Tau, dispensa as longas
análises. Não podemos, porém, silenciar o fato de que a interpretação
desta visão de Ezequiel está na base de todas as considerações sobre
o Tau como sinal de cruz. A fé cristã no Messias sofredor foi predita
no Antigo Testamento. Como cristãos, marcados pelo sinal da cruz no
Batismo, devemos, pelo sofrimento, tornar-nos imitadores do Cristo
crucificado. Assim se expressa São Gerônimo e muitos outros
comentadores. O texto do Livro de Ezequiel colorirá toda a tradição,
facilitando a passagem do Tau, que é igual a cruz e a cruz, que é
igual a 300 o qual por sua vez, é igual a cruz, através do Tau, que é
igual a 300.


Os exemplos citados conscientizam- nos que a mística do Tau não é um
produto espontâneo da mente de Francisco, mas uma constante herança
da longa tradição, original na idade média. Esta mística, emprestada
da Igreja grega e absorvida pela Igreja latina, permanecerá como um
dos mais queridos temas da exegese alegórica. Daqui podemos ter a
certeza de que Francisco mergulhava nela e absorvia seus conteúdos.
Todo o clero diocesano e religioso da época estudava a obra de
Isidoro de Sevilla, cheios de tesouros de etimologia e alegoria. Mais
ou menos era sob o fascínio da "Glosa comum", que o faziam bíblico.
Esta obra era a verdadeira base de cada biblioteca. Usava-se os seus
textos na pregação. A arte religiosa transformava- a em pinturas e até
o mais simples eram capazes de compreender os seus símbolos. Não
surpreende, portanto, o fato de que para o entusiasta dotado de
fantasia visual que foi Francisco, o mistério da cruz encontrou a
iluminadora e dinamizadora expressão, a ajuda na contemplação e o
impulso para a ação, até ele mesmo tornar-se um dia, pelos estigmas,
a expressão viva do sinal do Tau que tanto amava e ao qual prestava
uma verdadeiro culto.