O símbolo "TAU" em são Francisco e na História
"Quando vier o
Espírito Santo da Verdade, ele vos conduzirá à verdade
plena, pois não
falará de si mesmo, mas dirá tudoo que tiver ouvido e
vos anunciará as
coisas futuras."(Jo 16,13)
As duas línguas
bíblicas originais, hebraico e grego, possuem nos
seus alfabetos a
letra "Tau" (T). Este sinal gráfico adquiriu ao
longo dos séculos
conteúdos enigmáticos e ocupou um lugar de destaque
na vida e atitudes de
São Francisco de Assis, que o usou
frequentemente e,
mais ainda, tributou-lhe uma espécie de culto.
1 - Emblema e
assinatura de São Francisco
O uso do Tau por São
Francisco certificado pela testemunha ocular,
Frei Tomás de Celano,
que assim escreve na sua obra: "...Frei
Pacífico começou a
ter consolações que nunca tivera. Viu, diversas
vezes, coisas que
ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São
Francisco marcado na
fronte com um grande Tau, que tinha a beleza de
um pavão, por seus
círculos multicores." (2 cel, Nº 106). O sinal do
Tau era-lhe preferido
acima de todos os outros: ele o utilizava como
única assinatura para
suas cartas e pintava-lhe a imagem nas paredes
de todas as celas.
A escolha do Tau como
carimbo e como emblema para a nascente Ordem
dos menores indica a importância
que São Francisco atribuía a este
sinal. Além disso,
este costume assumiu rapidamente o aspecto de
culto, e isto é um
fenômeno revelador, pois desvenda toda a riqueza
de uma certa
espiritualidade.
A dimensão
devocional, quer dizer afetivo e religioso, destacou um
outro biógrafo de
Francisco: São Boaventura, que fala do uso do sinal
em caráter de
assinatura: "O tau era um sinal muito querido do Santo.
Recomendava- o muitas
vezes, fazia-o sobre si mesmo antes de iniciar
qualquer trabalho e o
escrevia de próprio punho no final das cartas
que ele enviava, como
se quisesse pôr todo seu empenho em imprimir
esse tau, segundo a
palavra do profeta (Ez 9,4), sobre a frente
daqueles que gemem e
choram seus pecados, de todos os verdadeiros
convertidos a Cristo
Jesus" (Leg. Men. Cap. 2, Nº 9).
Sintetiza-se neste
pequeno escrito, ao mesmo tempo simbólico, toda a
orientação do
apostolado de São Francisco: "Ele mesmo o recomendava
muitas vezes por
palavras e o escrevia (...), como se sua missão
consistisse, conforme
a palavra do profeta Ezequiel. Posteriormente
explicaremos o que
esta frase de Ezequiel possa significar para
Francisco."
Para São Francisco o
Tau não era apenas a assinatura pessoal. Frei
Tomás de Celano
informa que o santo usava-o como marco nas portas e
muros das celas dos
frades. Fazendo-nos pensar no Livro do Êxodo,
segundo o qual o
sinal da salvação era o sangue do Cordeiro nos
portais. Para nós e
para São Francisco, o sangue do cordeiro é o
sangue do Cristo
crucificado que nos remiu.
A informação de
Celano, referente às inscrições nas paredes das celas
é confirmada pelas
descobertas arqueológicas. Durante a renovação da
Capela de Santa
Madalena, em Fonte Colombo, foi encontrado, na
abertura da janela, um
Tau pintado em cor vermelha, ao lado do
Evangelho. A pintura
é dos tempos de São Francisco.
Uma rápida revista a
respeito da letra Tau na vida de São Francisco
seria incompleta sem
mencionar um milagre depois da sua morte,
operado por São
Francisco. Falam disso a "Legenda Áurea", e Tomás de
Celano no
"Tratado dos milagres", mostrando o culto do santo para com
o "sinal da
salvação": "Na cidade de Cori, na diocese de Óstia, um
homem tinha perdido
completamente o uso da perna, e não conseguia de
modo algum caminhar e
mover-se. (...) Comovido com tais implorações,
lembrando os favores
recebidos, apareceu de repente o Santo ao homem,
que nem podia dormir.
Disse-lhe que veio a seu chamado trazer-lhe
remédio para a cura.
Tocou a parte doente com uma varinha, que
portava sobre si o
sinal Tau. Logo se rompeu a úlcera e, recuperada a
saúde, ficou impresso
naquela parte o sinal do Tau" (nº 159).
2 - Influências
diretas
a - O concílio
Lateranense IV
Durante o Concílio
Ecumênico, realizado em Roma no ano 1215, o papa
comunicou a todos os
prelados ter concedido a Francisco e aos que
quisessem imitá-lo, a
aprovação da vida e da Regra evangélica.
É neste mesmo
Concílio que aflora o simbolismo do Tau. Inocêncio III
inaugura o Concílio
com uma fantástica pregação que imediatamente
adquire uma larga
repercussão. O fio condutor são as palavras de
Cristo:
"Ardentemente desejei comer esta páscoa convosco" (Lc 22,15).
Lembra que
"páscoa" significa "passagem" e faz votos que o Concílio,
a nova Páscoa, dê início
à tríplice "passagem": corporal, espiritual
e eterna. A
"passagem" corporal seria a armada e a recuperação de
Jerusalém; a
"passagem" espiritual deveria ser a mudança de um estado
de coisas para outra,
ou seja a conversão, a reforma da Igreja
universal; enfim, a
"passagem" eterna significa a passagem para a
verdadeira Vida, com
o auxílio dos sacramentos, principalmente a
Eucaristia.
A Segunda parte da
pregação, referente à passagem espiritual, é o
enérgico comentário
ao capítulo nono do Livro de Ezequiel. O papa faz
suas as palavras de
Deus ao profeta: "Percorre a cidade, o centro de
Jerusalém, e marca
com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram
devido a tantas
abominações que na cidade se cometem" (Ez 9,4), e
acrescenta: "O
Tau é a última letra do alfabeto hebraico e a sua
forma representa a
cruz, exatamente tal e qual foi a cruz antes de
ser nela afixada a
placa com a inscrição de Pilatos. O tau é o sinal
que o homem porta na
fronte quando com todo o seu ser revela a
irradiação da cruz;
quando como diz o apóstolo crucifica o corpo com
os seus pecados;
quando diz: `Não quero gloriar-me a não ser na cruz
de Nosso Senhor Jesus
Cristo, pela qual o mundo foi crucificado para
mim, e eu para o
mundo'(...). sejam portanto os mestres desta cruz!"
Assim soava o apelo,
o clamor às consciências e corações para a
mobilização geral,
para a cruzada de conversão e penitência.
Francisco acolheu
este apelo. O simbolismo do Tau e as suas ligações
com Ezequiel foram
bem conhecidos de Inocêncio III, como também do
povo da época. No seu
tratado sobre o sacramento do altar, afirma que
a letra Tau é o
primeiro sinal no cânon da missa começa com as
palavras: "Te
igitur" no qual ocupa por desígnio da providência
divina e não humana,
toda a página, e isto tem um significado
simbólico: a inicial
que na sua forma gráfica lembra a cruz, é "sinal
de penitência e
salvação, confiado pelo Senhor ao ministério
profético de
Ezequiel".
A reação de Francisco
à pregação de Inocêncio foi espontânea. Acatou
como um apelo
dirigido diretamente a ele. O papa dizia: "Alcançarão a
misericórdia aqueles
que usarem o Tau, sinal da vida penitente e
renovada em
Cristo". Francisco quis então marcar a si e aos seus
frades com este
sinal, que com o tempo tornar-se-á a marca da Vocação
da ordem.
O tau dará o colorido
a toda à espiritualidade de Francisco, que a
partir de 1215 mais
ainda aparecerá como espiritualidade da cruz e da
salvação, o que
demonstram, entre outros, as suas orações,
principalmente
"Ofício da Paixão do Senhor". O Tau da penitência é o
tema preferido da sua
pregação. Sentia-se interiormente mobilizado
pelo papa a esta
cruzada.
Queria que os frades
propagassem entre o povo a missão da conversão
evangélica, isto é,
da "passagem de Cristo". O Tau da vida
sacramental,
principalmente da vida eucarística (terceira parte da
pregação do papa
Inocêncio) também será objeto das suas
preocupações.
"Viver em penitência e receber o Corpo e Sangue..." são
dois inseparáveis
conceitos que frequentemente aparecem nas cartas de
Francisco, escritas
depois do Concílio. Além disto, as consequências
das resoluções
conciliares são visíveis em muitos aspectos da vida do
Santo. Por exemplo,
na "Carta aos clérigos" (redação segunda),
versículo 11, que
fala do dever de conservar o Santíssimo em lugares
dignos e sob chaves,
é simplesmente a fiel reprodução do cânon do
Concílio.
O Tau é também o
sinal dos vitoriosos. Francisco é bem consciente
disto. Primeiro prega
o Tau e depois reproduz no seu corpo (estigmas)
e brilha da alegria
que brota do amor é a cruz.
b - Irmãos de Santo
Antônio Eremita
A escolha do emblema
do Tau por Francisco corresponde à linha de ação
traçada pelo Concílio
Lateranense. Nesta escolha influiu mais um fato
determinante: o
encontro de São Francisco com os Irmãos de Santo
Antônio Eremita,
chamados popularmente de antonianos. Para explicar
isto, percorramos um
caminho um tanto longo, com cuidado pelos
detalhes.
A primeira questão
que devemos resolver é: que lugar ocupam os
leprosos na vida de
Francisco. Os leprosos eram antes de tudo um
mistério que
Francisco observava e contemplava. O zelo por eles é o
elemento constitutivo
da sua espiritualidade. Para ele, como para os
contemporâneos, o
mistério de Cristo leproso era bem familiar e
interpretado de
várias maneiras: na liturgia (no ofício lia-se o
cântico do Servo de
Javé segundo o profeta Isaías: "Nós o reputávamos
como um
castigado" Is 53,4; na arte (escultura, pintura, vitrais
apresentavam Cristo
com traços de leproso); enfim, a literatura que
expunha a famosa
lenda se São Juliano Hospitaleiro, carregando nos
ombros não o leproso,
mas o próprio Cristo.
O fato de São
Francisco chamar os leprosos de seus irmãos cristãos,
decorre de um
profundo e místico conceito. Viu neles o Cristo
sofredor. Ele vai
mais longe: da contemplação passa para a ação.
O "prólogo"
da conversão de Francisco é o famoso beijo depositado no
rosto de um leproso.
Em Assis havia o leprosário
"Casa Gualdi" sob os cuidados dos irmãos
cruzados. Francisco
permanecia lá e cuidava dos doentes.
Existia um hospital
onde Francisco ficou por mais vezes: Hospital de
Santo Antônio, em
Roma. É esta a igreja que liga Francisco aos
antonianos, chamados
também de irmãos hospitaleiros, por serem eles
os mantenedores deste
hospital.
A tarefa principal
dos antonianos foi cuidar dos doentes,
principalmente dos
leprosos.
Os antonianos tiveram
o símbolo do Tau com emblema, sinal de
pertencer à
congregação e símbolo da vocação caritativa. Usavam a
bengala, que era, na
parte superior, em forma de Tau e o hábito no
qual era visível este
sinal... Alguns historiadores afirmam que os
antonianos escolheram
este sinal somente porque Santo Antônio Eremita
foi representado na
escultura com a bengala com uma haste vertical ou
com o bastão em forma
da letra Tau. A verdade é bem diferente. O
culto procedia da
iconografia. A aceitação do Tau, semelhança da
cruz, está ligada a
toda uma mística e atividade caritativa. O fato é
que o Tau como
símbolo da saúde entrou na consciência e na cultura
religiosa do povo há
muito tempo. Já em 546, durante uma solene
procissão organizada
por São Gall, bispo de Clermont, para afastar a
peste no sul da França,
nos muros de todas as casas e igrejas
apareceu o
"sinal reconhecido pelo povo como Tau", e a epidemia
cessou. O fato é
narrado pelo historiador Gregório de Tours, que
vivia na época.
No encontro de São
Francisco com os antonianos, em 1209-1210, é
possível enxergar um
importante elemento, ou talvez um primeiro
estímulo que provocou
no Santo a devoção para com o sinal do Tau. E
tudo o que foi dito
acima torna compreensível uma das tarefas que
Francisco traçou para
a sua ordem, isto é o cuidado terno e atento
pelos infortunados e
doentes: "(todos irmãos) devem estar satisfeitos
quando estão no meio
dessa gente comum e desprezada, dos pobres e
fracos, enfermos e
leprosos e mendigos de rua"(Regra não-bulada,
Cap.9).
3 - Influências
secundárias
Tendo já conhecido o
que significava o Tau para Francisco,
aprofundemos agora o
sentido místico deste sinal. O esforço da
pesquisa terá caráter
de um tipo de "penetração" nos caminhos da
tradição, sem perder
de vista a finalidade principal de reconstruir
uma atmosfera
espiritual que envolvia São Francisco, reconstruir os
elementos do seu
universo, perceber, do jeito como ele e seus
contemporâneos
perceberam, toda a riqueza mística acumulada ao longo
dos séculos, relativa
ao Tau. Descobriremos conceitos, idéias,
representações que
perderam para nós a eloquência, enquanto que
naquele tempo eram
bem familiares. O simbolismo de letras e números
era compreensível a
todos e era tema largamente explorado pelos
pregadores, pela arte
e pela literatura.
a - O simbolismo
gráfico do Tau
A forma gráfica da
letra Tau (T) tornou-se, ao longo dos séculos, a
base da teologia da
cruz, desenvolvida pelos judeus, Gregos e
comentadores latinos.
Para os judeus, a
antiga letra "T", em sua grafia primitiva, tinha a
forma de cruz:
"x" ou "+". A forma da letra, na escrita hebraica,
sofria transformações
até receber, pouco definida a forma de um
pórtico. Contudo,
ainda São Gerônimo (+420) sabia que o antigo
sinal "T"
possuía a forma de uma cruz: "Para os judeus, e também para
os Samaritanos, ainda
hoje o `Tau', a última letra do alfabeto, tem a
mesma forma da cruz
que os cristãos marcam nas suas frontes e usam
como
proteção"(PL 25,88).
Falando em Tau, que
para os cristãos lembra a forma da cruz, vale a
pena citar as
palavras de Cristo antes de ser crucificado: "Se alguém
quer seguir,
renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc
8,34). Os apóstolos
não podiam interpretar a frase como referência à
cruz de Cristo,
instrumento de castigo romano. A cruz, da qual fala o
Mestre antes de ir
para Jerusalém, é simplesmente o sinal da fé
(atitude interior da
qual a expressão externa é a imagem), quer
dizer, do amor e
apego à Lei (à Torah, que se inicia com a letra Tau)
e sinal de ser de
Deus. Somente depois da sua morte as palavras foram
interpretadas à luz
do sofrimento.
A comunidade cristã
assimilou o Tau como cruz, mais ainda: colocou o
tau em relação com a
cruz de Cristo.
Para os gregos a
letra Tau também possuía a forma de cruz. A letra
grega ;e formada pelo
traço vertical, semelhante a letra iota (i) e
pelo traço horizontal
chamado "Kereia". Por isto muitas vezes à luz
da cruz foram
interpretadas as palavras de Jesus: Passarão o céu e a
terra, antes que
desapareça um Jota, um traço da Lei. (Mt 5,18)
Até para os Gregos
descrentes em Cristo o Tau representava a imagem
da cruz, naturalmente
não a imagem da cruz de Cristo e sim, o
instrumento de
castigo dos escravos. Explica isto Luciano de Samosta
(+200). Os gregos
crentes e não-crentes, olhando o Tau, davam-lhe
ainda outro
significado, desconhecido para nós. Visualmente a letra
representa a vela ou
o mastro do navio. Não surpreende, então, todo
este florescer
"náutico" da exegese do Tau. Esta interpretação
inspira-se na forma
visual do sinal e é permeada da reminiscências da
literatura. Recorre
nela o fio da "Odisséia", que fala de Ulisses
segurando
desesperadamente o mastro do navio. Daí nasce a
representação da cruz
em relação à epopéia nacional dos gregos da
cruz como a última
"tábua da salvação" durante a tempestade.. .
Para os latinos a
letra Tau não existe, mas todos os comentadores das
Escrituras acolheram
a tradição anterior. Os Enciclopedistas, temos
p.ex. Isidoro de
Sevilla (+630), os exegetas e pregadores populares
basearam-se, para as
suas interpretações, no fato de que a letra
hebraica e grega
"Tau" possui a forma da cruz.
Estas considerações
permitem penetrar mais profundamente na
mentalidade religiosa
de São Francisco. Quando falava do Tau, ele
também pensava na
cruz de Cristo. Espontaneamente interpretava o Tau
com os seguintes
conceitos: sinal e símbolo eficaz da salvação para
todos os que desejam
ser com ele marcados. Sabia que desta maneira
seguia as pegadas de
uma longa tradição, a qual ao longo dos séculos
anunciava, inclusive
através dos escritores não-cristãos, o Cristo
Redentor e Vitorioso
pela Cruz.
b - O simbolismo numérico
do Tau
Tendo conhecido a
grafia, a forma do Tau, passamos à aritmética, aos
valores numéricos do
sinal.
Para compreendermos o
simbolismo aritmético, precisamos saber que nem
sempre se expressavam
os números com os sinais numéricos. Os antigos
desconheciam os
números que hoje nós usamos com herança dos Árabes.
Conheciam apenas o
alfabeto, para formar as palavras e para registrar
os valores. Aqui está
o fundamento daquele cruzamento entre as
palavras e os valores
numéricos, a sofisticada e enganadora acrobacia
praticada pelos
discípulos de Pitágoras, tão sensíveis a língua dos
números. Vergílios,
antes de São João, foi fascinado pelo famoso
símbolo numérico 666.
Até os mais simples sabiam que as letras do
nome de Davi,
somadas, significavam o número 14. No nome Iesous, liam
888, e em IN 13, e
com tanta rapidez como hoje nós lemos valores de
dezenas de milhões.
Surgiu até um ramo da ciência que se dedicava a
estabelecer as
relações entre letras e números, oferecendo as chaves
e abrindo as portas
para a compreensão das alegorias aritméticas.
No alfabeto grego a
letra Tau representava o valor 300. Para os
cristãos do círculo
da cultura grego-romana, o Tau significava ao
mesmo tempo o sinal
da salvação e o número 300 que ocorre na Bíblia,
espontaneamente
trazia à tona o Tau, colocando-o no contexto da
salvação ou da
vitória. Explicaremos este simbolismo aritmético nos
três exemplos.
A Arca de Noé
"Deus disse a
Noé: `Faze para ti uma arca de madeira resinada (...).
E eis como a farás:
seu comprimento será de trezentos côvados'". (Gen
6, 4-15)
O fragmento citado
tem para muitos comentadores um profundo
significado, pois
permite construir a "náutica" e a simbólica
numérica
cristianizadas. Entregam-se, então às complicadas
especulações para
descobrir o sentido místico dos trezentos côvados.
Orígenes explica que
a arca é a balsa salvífica que prefigura a cruz
salvadora, pois o
número 300 é igual a Tau, que é igual a mastro com
a raia, que por sua
vez é igual a cruz.
Na arca pode ser
encontrado, com depois em toda a tradição, o duplo
simbolismo, duplo
sentido dialético da letra Tau; é ao mesmo tempo
sinal de vida e sinal
de morte; a vida eterna é dada aos homens pela
morte de Deus do
homem crucificado no madeiro. Percebemos que São
Francisco jamais
separou, na sua espiritualidade, Jesus condenado à
morte do Cristo
"glorioso e bendito pelos séculos". Ainda no início
do século XIII, a
tradicional interpretação da arca ocorria até na
liturgia e assim se
perpetuou na mentalidade popular. Sem dúvida,
Francisco cantava o
seguinte hino litúrgico: "Ligno crucis fabricatur
(Arca Noe qua
salvatur) Mundus a miseria" Da madeira da cruz foi
construída a arca de
Noé que as;vará o mundo da miséria (Analecta
Mymnica, Leipzig
1890, VIII, 29).
Servos de Abraão
"Abraão, tendo
ouvido que Lot, seu parente, ficara prisioneiro,
escolheu trezentos e
dezoito dos seus melhores e mais corajosos
servos, nascidos em
sua casa, e foi ao alcance dos reis até Dan."
(Gen 14,14)
De que modo o Tau,
valor numérico 300, entrou na interpretação dos
trezentos e dezoito
servos? Prestemos atenção às explicações do
Pseudo-Barnaba (+
cerca de 130): "Saibam que a Bíblia, assim
transcreve o número
318: INT, que equivale a IN 18 3 T 300. Dezoito
como número equivale
a IN e assim tens i início do nome de Jesus. A
letra Tau,
equivalente ao valor 300, anuncia o advento da graça pela
cruz. Nas primeiras
letras temos alusão a Jesus, na última, à sua
cruz ".
Semelhante exposição
encontramos entre os latinos, com p.ex. em
Ambrósio (+397): os
servos de Abraão constituem a figura dos futuros
cristãos; seu número
prefigura a cruz e o nome de Jesus; a vitória
deles é a vitória da
Graça, graças à qual foram escolhidos: "Escolha
318 para te ensinar
que o que conta não é o número, mas a eleição. E
escolhe 318 fiéis que
acreditam em Jesus e em sua cruz, porque os 300
fiéis significam a
letra grega Tau e 18 representa IN, que quer dizer
Jesus".
Nesta ocasião é
mister lembrar o culto franciscano do nome de Jesus,
paralelo ao culto do
Tau. São Francisco, ao culto do Tau, acrescentou
o lírico e muito
medieval culto do nome salvífico de Jesus: "Os
frades que conviveram
com ele sabem, que estava todos os dias e
continuamente falando
sobre Jesus, e como sua conversação era doce,
suave, bondosa e
cheia de amor (...). possuía a Jesus de muitos
modos: levava sempre
Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos
ouvidos, Jesus nos
olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os outros
membros. Quantas
vezes ao sentar-se para almoçar, ouvindo, falando ou
pensando em Jesus,
esquecia-se do alimento corporal e, como lemos a
respeito de um santo:
"Vendo, não via; ouvindo, não ouvia". Este amor
pelo nome de Jesus e
pela sua forma gráfica, encontra-lo-á dois
séculos depois, o
mestre, em São Bernadino de Sena. A palavra INS é a
mais antiga forma
abreviada de Jesus (que se encontra nos manuscritos
e nas lápides
sepulcrais) é IN, iota e eta, duas primeiras letras do
nome de Jesus.
Vemos de modo claro
que até os pormenores da história são analisados
sob a ótica
alegórica. O esforço constante em descobrir o mistério
escondido por trás
dos números. É uma tradição que Francisco
enriquece ao seu
modo; é o fluxo de idéias e conceitos que formam o
clima do século XIII.
O Tau de Ezequiel
"Percorre a
cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na
fronte os que gemem e
suspiram devido a tantas abominações que na
cidade se
cometem" (Ez 9,4).
O que foi dito a
respeito deste texto, seja falando do sermão de
Inocêncio III, seja
da forma da letra Tau, dispensa as longas
análises. Não
podemos, porém, silenciar o fato de que a interpretação
desta visão de
Ezequiel está na base de todas as considerações sobre
o Tau como sinal de
cruz. A fé cristã no Messias sofredor foi predita
no Antigo Testamento.
Como cristãos, marcados pelo sinal da cruz no
Batismo, devemos,
pelo sofrimento, tornar-nos imitadores do Cristo
crucificado. Assim se
expressa São Gerônimo e muitos outros
comentadores. O texto
do Livro de Ezequiel colorirá toda a tradição,
facilitando a
passagem do Tau, que é igual a cruz e a cruz, que é
igual a 300 o qual
por sua vez, é igual a cruz, através do Tau, que é
igual a 300.
Os exemplos citados
conscientizam- nos que a mística do Tau não é um
produto espontâneo da
mente de Francisco, mas uma constante herança
da longa tradição,
original na idade média. Esta mística, emprestada
da Igreja grega e
absorvida pela Igreja latina, permanecerá como um
dos mais queridos
temas da exegese alegórica. Daqui podemos ter a
certeza de que
Francisco mergulhava nela e absorvia seus conteúdos.
Todo o clero
diocesano e religioso da época estudava a obra de
Isidoro de Sevilla,
cheios de tesouros de etimologia e alegoria. Mais
ou menos era sob o
fascínio da "Glosa comum", que o faziam bíblico.
Esta obra era a
verdadeira base de cada biblioteca. Usava-se os seus
textos na pregação. A
arte religiosa transformava- a em pinturas e até
o mais simples eram
capazes de compreender os seus símbolos. Não
surpreende, portanto,
o fato de que para o entusiasta dotado de
fantasia visual que
foi Francisco, o mistério da cruz encontrou a
iluminadora e
dinamizadora expressão, a ajuda na contemplação e o
impulso para a ação,
até ele mesmo tornar-se um dia, pelos estigmas,
a expressão viva do
sinal do Tau que tanto amava e ao qual prestava
uma verdadeiro culto.