O Código de Direito Canônico da Igreja
O Código de Direito Canônico da Igreja é o conjunto de regras sagradas que regem a vida da Igreja.
Desde os primórdios já existiam as coleções dos sagrados cânones. Em 21 de julho de 429, o Papa Celestino advertia em Carta aos Bispos que: "a nenhum sacerdote é lícito ignorar os cânones". E o IV Concílio de Toledo, em 633, advertia: "Os sacerdotes conheçam as Escrituras Sagradas e os cânones", porque "a ignorância, mãe de todos os erros, deve ser evitada, principalmente nos sacerdotes de Deus" (cân. 25; Mansi X, col. 627).
Nos dez primeiros séculos haviam numerosas coleções de leis eclesiásticas, emanadas dos Concílios e dos Papas. Mas não havia ainda um único documento que contivesse todas as normas vigentes para a Igreja latina. No Concílio Vaticano I (1870), os Bispos pediram que se fizesse uma única coletânea de leis. O Concílio, que teve curta duração por causa da guerra na Itália, não pode fazer a obra. Coube ao Papa São Pio X dar início ao trabalho. O Código foi aprovado pelo Papa Bento XV, sucessor de Pio X, em 27 de maio de 1917, e entrou em vigor em 19/05/1918.
Coube ao Papa João XXIII propor a renovação do Código de 1917, quando anunciou o início do Concílio Vaticano II, em 25/01/1959. No entanto, o novo Código, que está em vigor hoje, só veio a ser aprovado pelo Papa João Paulo II, em 25/01/1983. Disse o Papa ao aprovar o Código, através da Constituição Apostólica Sacrae Disciplinae Leges:
"Torna-se bem claro, pois, que o objetivo do Código não é, de forma alguma, substituir, na vida da Igreja ou dos fiéis, a fé, a graça, os carismas, nem muito menos a caridade. Pelo contrário, sua finalidade é, antes, criar na sociedade eclesial uma ordem que, dando a primazia ao amor, à graça e aos carismas, facilite ao mesmo tempo seu desenvolvimento orgânico na vida, seja da sociedade eclesial, seja de cada um de seus membros. Como principal documento legislativo da Igreja, baseado na herança jurídico-legislativa da Revelação e da Tradição, o Código deve ser considerado instrumento indispensável para assegurar a devida ordem tanto na vida individual e social como na própria atividade da Igreja". "O novo Código de Direito Canônico é publicado no momento em que os Bispos de toda a Igreja, não somente pedem a sua publicação, como a solicitam com insistência e energia. De fato, o Código de Direito Canônico é totalmente necessário à Igreja. Constituída também como corpo social e visível, a Igreja precisa de normas: para que se torne visível a sua estrutura hierárquica e orgânica; para que se organize devidamente o exercício das funções que lhe foram divinamente confiadas, principalmente as do poder sagrado e da administração dos sacramentos; para que se componham, segundo a justiça inspirada na caridade, as relações mútuas entre os fiéis, definindo-se e garantindo-se os direitos de cada um; e finalmente, para que as iniciativas comuns empreendidas em prol de uma vida cristã mais perfeita, sejam apoiadas, protegidas e promovidas pelas leis canônicas". "Exortamos, pois, todos os diletos filhos a que observem com sinceridade e boa vontade as normas propostas, na firme esperança de que floresça a solícita disciplina da Igreja e de que, assim, sob a proteção da Beatíssima Virgem Maria, Mãe da Igreja, se promova mais e mais a salvação das almas".
As Edições Loyola publicaram este Código, em 1987, com a legislação complementar da CNBB, e com valiosos comentários do Pe. Jesús Hortal, S.J., doutor em Direito Canônico. Em seguida apresentamos um pequeno resumo dos assuntos abordados pelo Código, que é composto por 1752 cânones:
Livro I - Das normas gerais
Livro II - Do Povo de Deus, dos Fiéis, da constituição hierárquica da Igreja, dos Institutos de vida consagrada e Sociedades de vida apostólica
Livro III - Do múnus de ensinar
Livro IV - Do múnus de santificar da Igreja, os sacramentos, os outros atos do culto divino, os lugares e tempos sagrados
Livro V - Dos bens temporais da Igreja
Livro VI - Das sanções na Igreja, dos delitos e das penas em geral, das penas para cada delito
Livro VII - Dos processos, dos juízos em geral, do juízo contencioso, de alguns processos especiais, do processo penal, do modo de proceder nos recursos administrativos e na destituição e transferência de párocos.
Fonte: Cleófas
O Código de Direito Canônico da Igreja é o conjunto de regras sagradas que regem a vida da Igreja.
Desde os primórdios já existiam as coleções dos sagrados cânones. Em 21 de julho de 429, o Papa Celestino advertia em Carta aos Bispos que: "a nenhum sacerdote é lícito ignorar os cânones". E o IV Concílio de Toledo, em 633, advertia: "Os sacerdotes conheçam as Escrituras Sagradas e os cânones", porque "a ignorância, mãe de todos os erros, deve ser evitada, principalmente nos sacerdotes de Deus" (cân. 25; Mansi X, col. 627).
Nos dez primeiros séculos haviam numerosas coleções de leis eclesiásticas, emanadas dos Concílios e dos Papas. Mas não havia ainda um único documento que contivesse todas as normas vigentes para a Igreja latina. No Concílio Vaticano I (1870), os Bispos pediram que se fizesse uma única coletânea de leis. O Concílio, que teve curta duração por causa da guerra na Itália, não pode fazer a obra. Coube ao Papa São Pio X dar início ao trabalho. O Código foi aprovado pelo Papa Bento XV, sucessor de Pio X, em 27 de maio de 1917, e entrou em vigor em 19/05/1918.
Coube ao Papa João XXIII propor a renovação do Código de 1917, quando anunciou o início do Concílio Vaticano II, em 25/01/1959. No entanto, o novo Código, que está em vigor hoje, só veio a ser aprovado pelo Papa João Paulo II, em 25/01/1983. Disse o Papa ao aprovar o Código, através da Constituição Apostólica Sacrae Disciplinae Leges:
"Torna-se bem claro, pois, que o objetivo do Código não é, de forma alguma, substituir, na vida da Igreja ou dos fiéis, a fé, a graça, os carismas, nem muito menos a caridade. Pelo contrário, sua finalidade é, antes, criar na sociedade eclesial uma ordem que, dando a primazia ao amor, à graça e aos carismas, facilite ao mesmo tempo seu desenvolvimento orgânico na vida, seja da sociedade eclesial, seja de cada um de seus membros. Como principal documento legislativo da Igreja, baseado na herança jurídico-legislativa da Revelação e da Tradição, o Código deve ser considerado instrumento indispensável para assegurar a devida ordem tanto na vida individual e social como na própria atividade da Igreja". "O novo Código de Direito Canônico é publicado no momento em que os Bispos de toda a Igreja, não somente pedem a sua publicação, como a solicitam com insistência e energia. De fato, o Código de Direito Canônico é totalmente necessário à Igreja. Constituída também como corpo social e visível, a Igreja precisa de normas: para que se torne visível a sua estrutura hierárquica e orgânica; para que se organize devidamente o exercício das funções que lhe foram divinamente confiadas, principalmente as do poder sagrado e da administração dos sacramentos; para que se componham, segundo a justiça inspirada na caridade, as relações mútuas entre os fiéis, definindo-se e garantindo-se os direitos de cada um; e finalmente, para que as iniciativas comuns empreendidas em prol de uma vida cristã mais perfeita, sejam apoiadas, protegidas e promovidas pelas leis canônicas". "Exortamos, pois, todos os diletos filhos a que observem com sinceridade e boa vontade as normas propostas, na firme esperança de que floresça a solícita disciplina da Igreja e de que, assim, sob a proteção da Beatíssima Virgem Maria, Mãe da Igreja, se promova mais e mais a salvação das almas".
As Edições Loyola publicaram este Código, em 1987, com a legislação complementar da CNBB, e com valiosos comentários do Pe. Jesús Hortal, S.J., doutor em Direito Canônico. Em seguida apresentamos um pequeno resumo dos assuntos abordados pelo Código, que é composto por 1752 cânones:
Livro I - Das normas gerais
Livro II - Do Povo de Deus, dos Fiéis, da constituição hierárquica da Igreja, dos Institutos de vida consagrada e Sociedades de vida apostólica
Livro III - Do múnus de ensinar
Livro IV - Do múnus de santificar da Igreja, os sacramentos, os outros atos do culto divino, os lugares e tempos sagrados
Livro V - Dos bens temporais da Igreja
Livro V - Dos bens temporais da Igreja
Livro VI - Das sanções na Igreja, dos delitos e das penas em geral, das penas para cada delito
Livro VII - Dos processos, dos juízos em geral, do juízo contencioso, de alguns processos especiais, do processo penal, do modo de proceder nos recursos administrativos e na destituição e transferência de párocos.
Fonte: Cleófas
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Carisma de Fundação
PARTE I
Neste artigo iremos tratar, exclusivamente, dos fundadores e carismas de fundação das novas Comunidades (comunidades de vida e aliança). Começaremos falando sobre carisma para depois adentrar no conhecimento dos fundadores.
O carisma é um dom, uma novidade trazida pelo Espírito Santo para atender a necessidade da Igreja e do mundo num dado momento de sua história. Um carisma de fundação não traz em si todo o mistério de Cristo. Esse mistério não pode ser compreendido por uma só pessoa, uma só comunidade. O mistério de Cristo só pode ser compreendido na Igreja como um todo, na união de todos os seus movimentos. Por isso é que Deus, em Sua infinita sapiência, derrama carismas particulares e únicos em cada comunidade. Assim, não haverá jamais uma comunidade independente. Uma sempre estará precisando do carisma da outra para compreender um pouco o insondável mistério cristão.
“O Espírito Santo, artífice admirável da diversidade de carismas, suscitou no nosso tempo novas expressões de vida consagrada, como que desejando corresponder, segundo um desígnio providencial, às novas necessidades que a Igreja encontra hoje no cumprimento da sua missão no mundo”. (Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Vita Consecrata ao Episcopado e ao Clero, às Ordens e Congregações Religiosas, às Sociedades de Vida apostólica, aos Institutos Seculares e a todos os fiéis, sobre a Vida Consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo, www.vatican.va – 1996)
Nesse derramamento do Espírito Santo, o carisma torna-se uma novidade. Quando um carisma de fundação é suscitado na Igreja, vem com uma originalidade própria. Isto que dizer que aquele carisma só existe naquela Comunidade, e somente através do Fundador e demais membros o carisma pode ser vivido em sua totalidade.
Com relação ao Fundador, cada Comunidade tem um. Este é escolhido por Deus, é o pastor que vai a busca das ovelhas, é o pescador que lança as redes nas águas mais profundas.
Os Fundadores são verdadeiros profetas, anunciam com sua própria vida e com suas fundações uma profecia de Deus para a Igreja vivente de seu tempo. O Fundador é chamado por Deus a ser plenamente fiel a seu carisma e vocação. Essa é uma qualidade indispensável em um Fundador: a fidelidade.
“O Fundador é um mero, um pobre, um miserável instrumento nas mãos de Deus, que o utiliza como bem quer e bem entende em vista de um desígnio para a Igreja e para o mundo. Deus nos escolheu a partir de nossas fraquezas. Para que os olhos não fiquem nos homens, mas em Deus. Essa é uma das características fundamentais do carisma de fundação”. (Moyses Louro de Azevedo Filho. Comunidade Shalom, em “Comunidades e Relacionamento Eclesial”, Jornal Impresso da Frater. Órgão Oficial da Associação das Comunidades de Vida e Aliança, n. 02, 1999).
O Fundador recebe de Deus a graça do carisma de fundação, o qual é distinto de Comunidade para Comunidade, pois cada uma tem um carisma diferente, uma forma de evangelizar e de expressar o amor de Deus.
Uma tem o carisma de evangelizar através dos meios de comunicação; outra, tem o carisma para amar, ajudar e evangelizar os pobres à luz do Evangelho de Cristo; outra tem um carisma de ser um monge no mundo, outra tem o seu carisma identificado com o carisma de algum santo ou santa da nossa Igreja, etc.
O carisma do Fundador implica em uma resposta livre a algo completamente novo da parte de Deus, onde muitas vezes o fundador estará solitário e incompreendido. O carisma do fundador é persistente, é uma novidade que ultrapassa suas capacidades humanas de compreensão. O carisma, para ser autêntico deve ser transmissível, ou seja, deve atrair outras pessoas, discípulos.
“Carisma é um dom particular de Deus, uma graça única! É a identidade própria que a Comunidade adquire. É um dom particular dado por Deus a um grupo, a uma Comunidade, a um Fundador que repassa isso àqueles que o querem seguir. Distinto de outros já existentes, o carisma de uma fundação não se iguala a nenhum outro. É dado por Deus com exclusividade para uma Comunidade e transmitido pelo Fundador ou pelos primeiros membros. É algo que não se repete”. (Elias Dimas dos Santos. “Novas Comunidades, dom da Trindade”. Edições Loyola, São Paulo, pág. 60, 2003).
Esses discípulos são as primeiras pessoas que Deus coloca junto do Fundador para fazerem parte dessa experiência fundante. São os chamados co-Fundadores, aqueles que, unidos ao Fundador fazem florescer a Comunidade. Eles são criados por Deus para vivenciarem esse carisma de fundação.
Existem aspectos particulares na vida e vocação de cada co-Fundador que vai identificando o carisma de fundação, identificação esta observada pelo Fundador. Os co-Fundadores são importantes para o crescimento e reconhecimento do carisma. Porém, somente o Fundador pode delimitar o carisma, ou seja, só o Fundador possui a percepção total do carisma, dada por Deus. Desta forma, o Fundador, a partir de sua experiência e vivência com Deus, vai definindo a índole própria, a função e a natureza da Comunidade e seu carisma.
PARTE II
“O carisma de fundação da Comunidade Doce Coração de Jesus e Maria é amar e propagar a salvação a partir do amor à Paixão de Cristo, é resgatar o valor e a essência desse ato de amor tão sublime, o qual, de certa forma, está um pouco esquecido no mundo de hoje. É levar a Paixão de Cristo aos corações, e assim sucessivamente, levar as pessoas a amarem o Cristo a partir de sua Paixão, já que muitos preferem esquecê-la. Onde muitos sé procuram amar o Cristo a partir de sua Ressurreição, o que é muito mais fácil e menos doloroso. Como não há ressurreição sem crucificação, o objetivo de nossa comunidade é resgatar o amor ao Ressuscitado a partir do Crucificado”.
A grandiosidade da diversidade de carismas está no fato de que se podem resgatar muito mais pessoas assim do que se existisse apenas um carisma para todas, mas isso não quer dizer que um seja melhor do que a outro. Graças a Deus que o Espírito Santo é criativo, não imitativo.
“O carisma é aquilo que identifica a Comunidade, que fala do “ser”, da sua identidade profunda; a missão é o carisma em ação, é o carisma acontecendo. É do carisma da Comunidade que emana a formação, a vida de oração, a nossa espiritualidade e a nossa missão. O carisma de uma comunidade nunca se repete, Deus é extremamente criativo”. (Pe.Wagner. Comunidade Canção Nova, “Formação, espiritualidade e missão emanam do carisma das nossas comunidades”. (Palestra proferida no Encontro para Comunidades de Vida e Aliança, em Joinville, Santa Catarina. Jornal Impresso da Frater, Órgão Oficial da Associação das Comunidades de Vida e Aliança, n. 09, 2000).
No seio das Comunidades, o Espírito Santo vai preenchendo os corações dos membros, a partir da vivência do carisma pelo Fundador, com o desejo sempre presente de busca pela santidade e conversão, nos deixando totalmente abertos e livres ao amor incondicional a Jesus e ao nosso irmão.
“O Espírito Santo nos torna livres para amar. As novas Comunidades de Vida e Aliança, tendo consciência deste Poder do Alto, propõem-se a ser instrumento da Igreja na sua grande renovação neste tempo onde o Papa nos convida: Duc in altum - mar adentro. É importante que os vossos carismas sejam confirmados na docilidade à Igreja, compreendendo a multiplicidade na unidade. Muito ligado ao carisma é a santidade, que tem sido a grande característica das Novas Comunidades, que não vivem sem a oração e a escuta da palavra de Deus, e a sua leitura orante através da Lectio Divina”. (Dom Marcelo Pinto Carvalheira, Comunidades e o Sopro do Espírito. Jornal Impresso da Frater. Órgão Oficial da Fraternidade das Comunidades Novas de Vida e Aliança, n. 08, 2002).
Permito-me a comparar as comunidades e o carisma de seus Fundadores a um quebra-cabeça, onde cada peça do quebra-cabeça representa uma Comunidade diferente, e onde todas as peças são, ao mesmo tempo, importantes para formar o todo. É isso o que Deus quer: a diversidade na unidade, unidade esta selada pelo sangue de Jesus Cristo derramado na cruz e pelo fogo ardente do Espírito Santo.
O carisma de fundação é enraizado na alma do Fundador, e caracteriza toda a missão da Comunidade. As pessoas que se aproximam de um Fundador têm necessariamente que viver e partilhar com ele a essência do carisma de fundação dado por Deus. Essas pessoas geralmente se aproximam por se identificar com o carisma da Comunidade, que é vivido em intensidade por seu Fundador. O carisma de fundação vem transformando totalmente a vida do Fundador, de onde. a partir dessa transformação, outras pessoas são levadas pelo Espírito Santo a se transformarem também. Isto é fruto do testemunho e da capacidade do Fundador em transmitir e comunicar a experiência fundante através de sua vida e história.
O Fundador é aquele que, mediante inspiração divina, sabe o para quê? por quê? de onde veio? e aonde irá? o carisma de fundação e sua comunidade.
“Desde sempre na Igreja, o Espírito Santo concede a alguns o carisma de Fundadores. Desde sempre faz com que, ao redor do Fundador ou da Fundadora, se reúnam pessoas que compartilham a orientação da sua forma de vida consagrada, o seu ensinamento, o seu ideal, a sua atração de caridade ou de magistério, ou de apostolado pastoral. Desde sempre o Espírito Santo cria e faz crescer a harmonia das pessoas congregadas e as ajuda a desenvolver uma vida em comum, animada pela caridade segundo a orientação particular do carisma do Fundador e dos seus fiéis seguidores”. (L’Osservatore Romano, n. 12 de 25/03/1995).
Todo o direcionamento e a condução do rebanho, que neste caso são os membros da comunidade, são feitos pelo Fundador. É a ele que Deus dá poder e autoridade em Seu nome para conduzir o rebanho. Só e somente só, o Fundador tem o direito de modificar a condução da comunidade.
Todos que dele se aproximarem, devem ter consciência deste fato, o qual não é uma determinação humana, mas determinação de Deus. Com isso, não quero dizer que o Fundador seja intocável, não. Pelo contrário, é sobre ele que o demônio direciona os seus grandes ataques.
Cabe a nós, membros da Comunidade, orar constantemente pela santificação de nosso Fundador. Orar para que ele esteja sempre sensível às determinações de Deus, buscando assim suprimir a vontade humana pela vontade divina.
“Precisamos ter discernimento, precisamos ser perseverantes, para que a obediência paire e sejamos conforme o desejo do Fundador, pois sabemos que a voz do Fundador é a voz de Deus!” (Pe. José Augusto. Comunidade Canção Nova. Homilia proferida em: 26/05/2001 no Encontro de Comunidades).
PARTE I
Neste artigo iremos tratar, exclusivamente, dos fundadores e carismas de fundação das novas Comunidades (comunidades de vida e aliança). Começaremos falando sobre carisma para depois adentrar no conhecimento dos fundadores.
O carisma é um dom, uma novidade trazida pelo Espírito Santo para atender a necessidade da Igreja e do mundo num dado momento de sua história. Um carisma de fundação não traz em si todo o mistério de Cristo. Esse mistério não pode ser compreendido por uma só pessoa, uma só comunidade. O mistério de Cristo só pode ser compreendido na Igreja como um todo, na união de todos os seus movimentos. Por isso é que Deus, em Sua infinita sapiência, derrama carismas particulares e únicos em cada comunidade. Assim, não haverá jamais uma comunidade independente. Uma sempre estará precisando do carisma da outra para compreender um pouco o insondável mistério cristão.
“O Espírito Santo, artífice admirável da diversidade de carismas, suscitou no nosso tempo novas expressões de vida consagrada, como que desejando corresponder, segundo um desígnio providencial, às novas necessidades que a Igreja encontra hoje no cumprimento da sua missão no mundo”. (Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Vita Consecrata ao Episcopado e ao Clero, às Ordens e Congregações Religiosas, às Sociedades de Vida apostólica, aos Institutos Seculares e a todos os fiéis, sobre a Vida Consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo, www.vatican.va – 1996)
Nesse derramamento do Espírito Santo, o carisma torna-se uma novidade. Quando um carisma de fundação é suscitado na Igreja, vem com uma originalidade própria. Isto que dizer que aquele carisma só existe naquela Comunidade, e somente através do Fundador e demais membros o carisma pode ser vivido em sua totalidade.
Com relação ao Fundador, cada Comunidade tem um. Este é escolhido por Deus, é o pastor que vai a busca das ovelhas, é o pescador que lança as redes nas águas mais profundas.
Os Fundadores são verdadeiros profetas, anunciam com sua própria vida e com suas fundações uma profecia de Deus para a Igreja vivente de seu tempo. O Fundador é chamado por Deus a ser plenamente fiel a seu carisma e vocação. Essa é uma qualidade indispensável em um Fundador: a fidelidade.
“O Fundador é um mero, um pobre, um miserável instrumento nas mãos de Deus, que o utiliza como bem quer e bem entende em vista de um desígnio para a Igreja e para o mundo. Deus nos escolheu a partir de nossas fraquezas. Para que os olhos não fiquem nos homens, mas em Deus. Essa é uma das características fundamentais do carisma de fundação”. (Moyses Louro de Azevedo Filho. Comunidade Shalom, em “Comunidades e Relacionamento Eclesial”, Jornal Impresso da Frater. Órgão Oficial da Associação das Comunidades de Vida e Aliança, n. 02, 1999).
O Fundador recebe de Deus a graça do carisma de fundação, o qual é distinto de Comunidade para Comunidade, pois cada uma tem um carisma diferente, uma forma de evangelizar e de expressar o amor de Deus.
Uma tem o carisma de evangelizar através dos meios de comunicação; outra, tem o carisma para amar, ajudar e evangelizar os pobres à luz do Evangelho de Cristo; outra tem um carisma de ser um monge no mundo, outra tem o seu carisma identificado com o carisma de algum santo ou santa da nossa Igreja, etc.
O carisma do Fundador implica em uma resposta livre a algo completamente novo da parte de Deus, onde muitas vezes o fundador estará solitário e incompreendido. O carisma do fundador é persistente, é uma novidade que ultrapassa suas capacidades humanas de compreensão. O carisma, para ser autêntico deve ser transmissível, ou seja, deve atrair outras pessoas, discípulos.
“Carisma é um dom particular de Deus, uma graça única! É a identidade própria que a Comunidade adquire. É um dom particular dado por Deus a um grupo, a uma Comunidade, a um Fundador que repassa isso àqueles que o querem seguir. Distinto de outros já existentes, o carisma de uma fundação não se iguala a nenhum outro. É dado por Deus com exclusividade para uma Comunidade e transmitido pelo Fundador ou pelos primeiros membros. É algo que não se repete”. (Elias Dimas dos Santos. “Novas Comunidades, dom da Trindade”. Edições Loyola, São Paulo, pág. 60, 2003).
Esses discípulos são as primeiras pessoas que Deus coloca junto do Fundador para fazerem parte dessa experiência fundante. São os chamados co-Fundadores, aqueles que, unidos ao Fundador fazem florescer a Comunidade. Eles são criados por Deus para vivenciarem esse carisma de fundação.
Existem aspectos particulares na vida e vocação de cada co-Fundador que vai identificando o carisma de fundação, identificação esta observada pelo Fundador. Os co-Fundadores são importantes para o crescimento e reconhecimento do carisma. Porém, somente o Fundador pode delimitar o carisma, ou seja, só o Fundador possui a percepção total do carisma, dada por Deus. Desta forma, o Fundador, a partir de sua experiência e vivência com Deus, vai definindo a índole própria, a função e a natureza da Comunidade e seu carisma.
PARTE II
“O carisma de fundação da Comunidade Doce Coração de Jesus e Maria é amar e propagar a salvação a partir do amor à Paixão de Cristo, é resgatar o valor e a essência desse ato de amor tão sublime, o qual, de certa forma, está um pouco esquecido no mundo de hoje. É levar a Paixão de Cristo aos corações, e assim sucessivamente, levar as pessoas a amarem o Cristo a partir de sua Paixão, já que muitos preferem esquecê-la. Onde muitos sé procuram amar o Cristo a partir de sua Ressurreição, o que é muito mais fácil e menos doloroso. Como não há ressurreição sem crucificação, o objetivo de nossa comunidade é resgatar o amor ao Ressuscitado a partir do Crucificado”.
A grandiosidade da diversidade de carismas está no fato de que se podem resgatar muito mais pessoas assim do que se existisse apenas um carisma para todas, mas isso não quer dizer que um seja melhor do que a outro. Graças a Deus que o Espírito Santo é criativo, não imitativo.
“O carisma é aquilo que identifica a Comunidade, que fala do “ser”, da sua identidade profunda; a missão é o carisma em ação, é o carisma acontecendo. É do carisma da Comunidade que emana a formação, a vida de oração, a nossa espiritualidade e a nossa missão. O carisma de uma comunidade nunca se repete, Deus é extremamente criativo”. (Pe.Wagner. Comunidade Canção Nova, “Formação, espiritualidade e missão emanam do carisma das nossas comunidades”. (Palestra proferida no Encontro para Comunidades de Vida e Aliança, em Joinville, Santa Catarina. Jornal Impresso da Frater, Órgão Oficial da Associação das Comunidades de Vida e Aliança, n. 09, 2000).
No seio das Comunidades, o Espírito Santo vai preenchendo os corações dos membros, a partir da vivência do carisma pelo Fundador, com o desejo sempre presente de busca pela santidade e conversão, nos deixando totalmente abertos e livres ao amor incondicional a Jesus e ao nosso irmão.
“O Espírito Santo nos torna livres para amar. As novas Comunidades de Vida e Aliança, tendo consciência deste Poder do Alto, propõem-se a ser instrumento da Igreja na sua grande renovação neste tempo onde o Papa nos convida: Duc in altum - mar adentro. É importante que os vossos carismas sejam confirmados na docilidade à Igreja, compreendendo a multiplicidade na unidade. Muito ligado ao carisma é a santidade, que tem sido a grande característica das Novas Comunidades, que não vivem sem a oração e a escuta da palavra de Deus, e a sua leitura orante através da Lectio Divina”. (Dom Marcelo Pinto Carvalheira, Comunidades e o Sopro do Espírito. Jornal Impresso da Frater. Órgão Oficial da Fraternidade das Comunidades Novas de Vida e Aliança, n. 08, 2002).
Permito-me a comparar as comunidades e o carisma de seus Fundadores a um quebra-cabeça, onde cada peça do quebra-cabeça representa uma Comunidade diferente, e onde todas as peças são, ao mesmo tempo, importantes para formar o todo. É isso o que Deus quer: a diversidade na unidade, unidade esta selada pelo sangue de Jesus Cristo derramado na cruz e pelo fogo ardente do Espírito Santo.
O carisma de fundação é enraizado na alma do Fundador, e caracteriza toda a missão da Comunidade. As pessoas que se aproximam de um Fundador têm necessariamente que viver e partilhar com ele a essência do carisma de fundação dado por Deus. Essas pessoas geralmente se aproximam por se identificar com o carisma da Comunidade, que é vivido em intensidade por seu Fundador. O carisma de fundação vem transformando totalmente a vida do Fundador, de onde. a partir dessa transformação, outras pessoas são levadas pelo Espírito Santo a se transformarem também. Isto é fruto do testemunho e da capacidade do Fundador em transmitir e comunicar a experiência fundante através de sua vida e história.
O Fundador é aquele que, mediante inspiração divina, sabe o para quê? por quê? de onde veio? e aonde irá? o carisma de fundação e sua comunidade.
“Desde sempre na Igreja, o Espírito Santo concede a alguns o carisma de Fundadores. Desde sempre faz com que, ao redor do Fundador ou da Fundadora, se reúnam pessoas que compartilham a orientação da sua forma de vida consagrada, o seu ensinamento, o seu ideal, a sua atração de caridade ou de magistério, ou de apostolado pastoral. Desde sempre o Espírito Santo cria e faz crescer a harmonia das pessoas congregadas e as ajuda a desenvolver uma vida em comum, animada pela caridade segundo a orientação particular do carisma do Fundador e dos seus fiéis seguidores”. (L’Osservatore Romano, n. 12 de 25/03/1995).
Todo o direcionamento e a condução do rebanho, que neste caso são os membros da comunidade, são feitos pelo Fundador. É a ele que Deus dá poder e autoridade em Seu nome para conduzir o rebanho. Só e somente só, o Fundador tem o direito de modificar a condução da comunidade.
Todos que dele se aproximarem, devem ter consciência deste fato, o qual não é uma determinação humana, mas determinação de Deus. Com isso, não quero dizer que o Fundador seja intocável, não. Pelo contrário, é sobre ele que o demônio direciona os seus grandes ataques.
Cabe a nós, membros da Comunidade, orar constantemente pela santificação de nosso Fundador. Orar para que ele esteja sempre sensível às determinações de Deus, buscando assim suprimir a vontade humana pela vontade divina.
“Precisamos ter discernimento, precisamos ser perseverantes, para que a obediência paire e sejamos conforme o desejo do Fundador, pois sabemos que a voz do Fundador é a voz de Deus!” (Pe. José Augusto. Comunidade Canção Nova. Homilia proferida em: 26/05/2001 no Encontro de Comunidades).
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No Coração do Santo Padre
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
Domingo, 4 de Junho de 2006
Queridos irmãos e irmãs!
NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
Domingo, 4 de Junho de 2006
Queridos irmãos e irmãs!
No dia de Pentecostes o Espírito Santo desceu com poder sobre os Apóstolos; teve assim início a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os Onze para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua ressurreição (cf. Act 1, 3). Antes da ascensão ao Céu, ordenou que "não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem que se cumprisse a promessa do Pai" (cf. Act 1, 4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos para se prepararem para receber o dom do Espírito Santo. E eles reuniram-se em oração com Maria no Cenáculo à espera do acontecimento prometido (cf. Act 1,14).
Permanecer juntos foi a condição exigida por Jesus para receber o dom do Espírito Santo; pressuposto da sua concórdia foi uma oração prolongada. Desta forma, encontramos delineada uma formidável lição para cada comunidade cristã. Por vezes pensa-se que a eficiência missionária dependa principalmente de uma programação atenta e da sucessiva inteligente realização mediante um empenho concreto. Sem dúvida, o Senhor pede a nossa colaboração, mas antes de qualquer resposta nossa é necessária a sua iniciativa: é o seu Espírito o verdadeiro protagonista da Igreja. As raízes do nosso ser e do nosso agir estão no silêncio sábio e providente de Deus.
As imagens que São Lucas usa para indicar o irromper do Espírito Santo o vento e o fogo recordam o Sinai, onde Deus se tinha revelado ao povo de Israel e lhe tinha concedido a sua aliança (cf. Êx 19, 3ss). A festa do Sinai, que Israel celebrava cinquenta dias depois da Páscoa, era a festa do Pacto. Falando de línguas de fogo (cf. Act 2, 3), São Lucas quer representar o Pentecostes como um novo Sinai, como a festa do novo Pacto, na qual a Aliança com Israel se alargaatodos os povos da Terra. A Igreja é católica e missionária desde a sua origem. A universalidade da salvação é significativamente evidenciada pelo elenco das numerosas etnias a que pertencem todos os que ouvem o primeiro anúncio dos Apóstolos (cf. Act 2, 9-11).
O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, hoje é ampliado a ponto de não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo. Diferentemente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11, 1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente. No Pentecostes o Espírito, com o dom das línguas, mostra que a sua presença une e transforma a confusão em comunhão. O orgulho e o egoísmo do homem geram sempre divisões, erguem muros de indiferença, de ódio e de violência.
O Espírito Santo, ao contrário, torna os corações capazes de compreender as línguas de todos, porque restabelece a ponte da comunicação autêntica entre a Terra e o Céu. O Espírito Santo é Amor.
Mas como entrar no mistério do Espírito Santo, como compreender o segredo do Amor? A página evangélica conduz-nos hoje ao Cenáculo onde, tendo terminado a última Ceia, um sentido de desorientação entristece os Apóstolos. A razão é que as palavras de Jesus suscitam interrogativos preocupantes: Ele fala do ódio do mundo para com Ele e para com os seus, fala de uma sua misteriosa partida e há muitas outras coisas ainda para dizer, mas no momento os Apóstolos não são capazes de carrregar o seu peso (cf. Jo 16, 12). Para os confortar explica o significado do seu afastamento: irá mas voltará; entretanto não os abandonará, não os deixará órfãos. Enviará o Consolador, o Espírito do Pai, e será o Espírito que dará a conhecer que a obra de Cristo é obra de amor: amor d'Ele que se ofereceu, amor do Pai que o concedeu.
É este o mistério do Pentecostes: o Espírito Santo ilumina o espírito humano e, revelando Cristo crucificado e ressuscitado, indica o caminho para se tornar mais semelhantes a Ele, isto é, ser "expressão e instrumento do amor que d'Ele promana" (Deus caritas est 33). Reunida com Maria, como na sua origem, a Igreja hoje reza: "Veni Sancte Spiritus! Vem, Espírito Santo, enche os corações dos teus fiéis e acende neles o fogo do teu amor!".
Amém.
Roma Locuta
CELEBRAÇÃO DAS PRIMEIRAS VÉSPERAS
DA VIGÍLIA DE PENTECOSTES
ENCONTRO COM OS MOVIMENTOS
ECLESIAIS E AS NOVAS COMUNIDADES
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Sábado, 3 de Junho de 2006
Amados irmãos e irmãs
DA VIGÍLIA DE PENTECOSTES
ENCONTRO COM OS MOVIMENTOS
ECLESIAIS E AS NOVAS COMUNIDADES
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Sábado, 3 de Junho de 2006
Amados irmãos e irmãs
Viestes verdadeiramente em grande número esta tarde à Praça de São Pedro, para participar na Vigília de Pentecostes. Agradeço-vos de coração! Pertencentes a diversos povos e culturas, vós representais aqui todos os membros dos Movimentos eclesiais e das novas Comunidades, espiritualmente reunidos em redor do Sucessor de Pedro para proclamar a alegria de crer em Jesus Cristo, e renovar o compromisso de lhe serdes discípulos fiéis neste nosso tempo. Agradeço-vos a vossa participação e dirijo a cada um de vós a minha cordial saudação. Transmito o meu pensamento carinhoso em primeiro lugar aos Senhores Cardeais, aos venerados Irmãos no episcopado e no sacerdócio, aos religiosos e às religiosas. Saúdo os responsáveis das vossas numerosas realidades eclesiais, que mostram como é viva a acção do Espírito Santo no Povo de Deus. Saúdo as pessoas que prepararam este acontecimento extraordinário e, em particular, quantos trabalham no Pontifício Conselho para os Leigos, juntamente com o Secretário D. Josef Clemens, e o Presidente, D. Stanislaw Rylko, a quem agradeço também as cordiais expressões que me dirigiu no início da Liturgia das Vésperas. Volta com emoção à nossa memória o encontro análogo que teve lugar nesta mesma Praça, no dia 30 de Maio de 1998, com o amado Papa João Paulo II. Grande evangelizador da nossa época, ele acompanhou-vos e orientou-vos durante todo o seu Pontificado; várias vezes definiu "providenciais" as vossas Associações e Comunidades, sobretudo porque o Espírito santificador se serve delas para despertar a fé nos corações de numerosos cristãos e para fazer com que eles redescubram a vocação recebida mediante o Baptismo, ajudando-os a serem testemunhas de esperança, repletas daquele fogo de amor que é precisamente o dom do Espírito Santo.
Agora, nesta Vigília de Pentecostes, nós perguntamo-nos: quem ou o que é o Espírito Santo? Como podemos reconhecê-lo? De que modo vamos a Ele e Ele vem a nós? O que realiza? Uma primeira resposta recebêmo-la do grande hino pentecostal da Igreja, com o qual começamos as Vésperas: "Veni, Creator Spiritus... Vem, Espírito Criador...". Aqui, o hino refere-se aos primeiros versículos da Bíblia que, com o recurso a imagens, exprimem a criação do universo. Ali afirma-se sobretudo que acima do caos, sobre as águas do abismo, pairava o Espírito de Deus. O mundo em que vivemos é obra do Espírito Criador. O Pentecostes não é apenas a origem da Igreja e por isso, de modo especial, a sua festa; o Pentecostes é também uma festa da criação. O mundo não existe por si mesmo; provém do Espírito criativo de Deus, da Palavra criadora de Deus. E por este motivo reflecte inclusive a sabedoria de Deus. Na sua vastidão e na lógica omnicompreensiva das suas leis, ela deixa entrever algo do Espírito Criador de Deus. Exorta-nos ao temor reverencial.
Precisamente quem, como cristão, crê no Espírito Criador, toma consciência do facto de que não podemos usar e abusar do mundo e da matéria como de um simples objecto da nossa acção e da nossa vontade; que temos o dever de considerar a criação como um dom que nos foi confiado não para a destruição, mas para que se torne o jardim de Deus e assim um jardim do homem. Diante das múltiplas formas de abuso da terra que hoje vemos, ouvimos como que o gemido da criação, de que fala São Paulo (cf. Rm 8, 22); começamos a compreender as palavras do Apóstolo, ou seja, que a criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus, para se tornar livre e alcançar o seu esplendor.
Queridos amigos, nós queremos ser estes filhos de Deus, que a criação espera, e podemos sê-lo porque no baptismo o Senhor nos tornou assim. Sim, a criação e a história elas esperam por nós, contam com homens e mulheres que realmente sejam filhos de Deus e se comportem de modo consequente. Se contemplamos a história, vemos que em redor dos mosteiros a criação conseguiu prosperar, assim como com o despertar do Espírito de Deus nos corações dos homens voltou o fulgor do Espírito Criador também sobre a terra um esplendor que tinha sido ofuscado, e por vezes até quase extinto, pelas barbáries da avidez de poder. E a mesma coisa acontece de novo em redor de Francisco de Assis acontece em toda a parte onde às almas chega o Espírito de Deus, este Espírito que o nosso hino qualifica como luz, amor e força. Deste modo encontramos uma primeira resposta à pergunta sobre o que é o Espírito Santo, o que Ele põe em acção e como é que podemos reconhê-lo. Ele vem ao nosso encontro através da criação e da sua beleza. Todavia, ao longo da história dos homens, a boa criação de Deus foi coberta por um estrato maciço de escórias que torna, se não impossível, de qualquer maneira difícil reconhecer nela o reflexo do Criador embora diante de um pôr-do-sol no mar, durante uma excursão à montanha ou à vista de uma flor desabrochada desperte em nós, sempre de novo e como que espontaneamente, a consciência da existência do Criador.
Mas o Espírito Criador vem em nossa ajuda. Ele entrou na história e assim fala-nos de uma maneira nova. Em Jesus Cristo, o próprio Deus fez-se homem e permitiu-nos, por assim dizer, lançar um olhar na intimidade do próprio Deus. E ali vemos algo totalmente inesperado: em Deus existe um Eu e um Tu. O Deus misterioso não constitui uma solidão infinita; Ele é um acontecimento de amor. Se do olhar sobre a criação pensamos que podemos entrever o Espírito Criador, o próprio Deus, como que uma matemática criativa, como um poder que plasma as leis do mundo e a sua ordem e, em seguida, contudo, inclusive como beleza agora é-nos dado saber: o Espírito Criador tem um Coração. Ele é Amor. Existe o Filho que fala com o Pai. E ambos são um só no Espírito Santo que é, por assim dizer, a atmosfera do doar e do amar, que faz deles um único Deus. Esta unidade de amor, que é Deus, constitui uma unidade muito mais sublime de quanto poderia ser a unidade de uma última partícula indivisível. Precisamente o Deus trino é o Deus uno.
Por meio de Jesus nós lançamos, por assim dizer, um olhar sobre a intimidade de Deus. No seu Evangelho, João expressou-o assim: "A Deus, jamais alguém O viu. O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem O deu a conhecer" (Jo 1, 18). Todavia, Jesus não nos deixou somente olhar na intimidade de Deus; com Ele, Deus também como que saiu da sua intimidade e veio ao nosso encontro. Isto acontece sobretudo na sua vida, paixão, morte e ressurreição; na sua palavra. Mas Jesus não se contenta com vir ao nosso encontro. Ele quer mais. Deseja a unificação. Este é o significado das imagens do banquete e das bodas. Nós não devemos somente conhecer algo dele, mas através dele mesmo temos o dever de ser atraídos a Deus. Por isso, Ele deve morrer e ressuscitar. Porque agora já não se encontra num determinado lugar, mas o seu Espírito, o Espírito Santo, já emana dele e entra nos nossos corações, unindo-nos deste modo com o próprio Jesus e com o Pai com o Deus Uno e Trino.
O Pentecostes é isto: Jesus, e através dele o próprio Deus, vem a nós e atrai-nos para dentro de si. "Ele envia o Espírito Santo" assim se expressa a Escritura. Qual é o efeito disto? Em primeiro lugar, gostaria de relevar dois aspectos: o Espírito Santo, por meio de quem Deus vem a nós, dá-nos a vida e a liberdade. Observemos ambas um pouco mais de perto. "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância", diz Jesus no Evangelho de João (10, 10). Todos nós aspiramos à vida e à liberdade. Mas de que se trata, onde e como é que encontramos a "vida"?
Espontaneamente, penso que a esmagadora maioria dos homens tem o mesmo conceito de vida do filho pródigo, no Evangelho. Ele pediu a parte de património que lhe cabia, e agora sentia-se livre, queria finalmente viver já sem o peso dos afazeres de casa, queria simplesmente viver. Receber da vida tudo o que ela pode oferecer. Gozá-la plenamente viver, só viver, beber na abundância da vida e nada perder daquilo que de precioso ela pode oferecer. No final, acabou por se tornar guardião de porcos e chegou mesmo a invejar aqueles animais tão vazia se tinha tornado esta sua vida, tão inútil! E vã revelava-se inclusive a sua liberdade. Porventura não acontece também assim nos nossos dias?
Quando o homem quer somente apoderar-se da vida, ela torna-se cada vez mais vazia, mais pobre; termina-se facilmente por se refugiar na droga, na grande ilusão. E emerge a dúvida se, no final de contas, viver é verdadeiramente um bem. Não, deste modo nós não encontramos a vida. A palavra de Jesus sobre a vida em abundância encontra-se no discurso do Bom Pastor. É uma palavra que se põe num duplo contexto. Sobre o pastor, Jesus diz-nos que ele entrega a sua vida. "Ninguém tira a minha vida, mas sou Eu que a ofereço livremente" (cf. Jo 10, 18). A vida só se encontra, quando é doada; ela não pode ser encontrada, desejando tomar posse dela. É isto que devemos aprender de Cristo; é isto que nos ensina o Espírito Santo, que é puro dom, que é o doar-se de Deus. Quanto mais alguém entrega a sua vida pelos outros, pelo próprio bem, tanto mais copiosamente corre o rio da vida. Em segundo lugar, o Senhor diz-nos que a vida desabrocha, quando caminhamos em companhia do Pastor, que conhece as pastagens os lugares onde brotam as nascentes da vida. Encontramos a vida na comunhão com Aquele que é a vida em pessoa na comunhão com o Deus vivo, uma comunhão em que somos introduzidos pelo Espírito Santo, denominado no hino das Vésperas como "fons vivus", fonte viva. A pastagem, onde correm as fontes da vida, é a Palavra de Deus como a encontramos na Escritura, na fé da Igreja. A pastagem é o próprio Deus que, na comunhão da fé, aprendemos a conhecer através do poder do Espírito Santo.
Estimados amigos, os Movimentos nasceram precisamente da sede da vida verdadeira; são Movimentos pela vida sob todos os aspectos. Onde já não corre a verdadeira fonte da vida, onde o homem somente se apodera da vida em vez de a entregar, ali está em perigo também a vida dos outros; ali está-se disposto a excluir a vida inerme nascitura, porque ela parece tirar espaço à própria vida. Se quisermos proteger a vida, então temos que voltar a encontrar sobretudo o manancial da vida; deste modo, a própria vida deve ressurgir em toda a sua beleza e sublimidade; então temos o dever de nos deixarmos vivificar pelo Espírito Santo, a fonte criativa da vida.
O tema da liberdade já foi mencionado há pouco. Com a partida do filho pródigo estão vinculados precisamente os temas da vida e da liberdade. Ele deseja a vida e por isso quer ser totalmente livre. Nesta visão, ser livre significa poder fazer tudo o que desejo; não ter que aceitar qualquer critério fora e acima de mim mesmo. Seguir exclusivamente o meu desejo e a minha vontade. Quem vive assim, embater-se-á depressa com o outro que quer viver desta mesma maneira. A consequência necessária deste conceito egoísta de liberdade é a violência, a destruição recíproca da liberdade e da vida. Ao contrário, a Sagrada Escritura une o conceito de liberdade ao de progenitura. São Paulo diz: "Vós não recebestes um Espírito que vos escraviza e volta a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai!" (Rm 8,15).
O que é que isto significa? São Paulo pressupõe nisto o sistema social do mundo antigo, em que existiam os escravos, aos quais nada pertencia e que por isso não podiam interessar-se por um recto desenvolvimento dos acontecimentos. Correspondentemente havia os filhos, que eram também os herdeiros e que por este motivo se preocupavam com a conservação e a boa administração da sua propriedade ou com a preservação do Estado. Dado que eram livres, tinham também uma responsabilidade. Prescindindo do contexto sociológico daquela época, é válido sempre este princípio: a liberdade e a responsabilidade caminham juntas. A verdadeira liberdade demonstra-se na responsabilidade, num modo de agir que assume sobre si a co-responsabilidade pelo mundo, por si mesmo e pelos outros. Livre é o filho, a quem pertencem as coisas e que por isso não permite que as mesmas sejam destruídas. Todas as responsabilidades mundanas, de que falamos, são contudo responsabilidades parciais, por um determinado âmbito, por um certo Estado, etc. O Espírito Santo, pelo contrário, torna-nos filhos e filhas de Deus. Ele compromete-nos nesta mesma responsabilidade de Deus pelo seu mundo, pela humanidade inteira. Ensina-nos a contemplar o mundo, o próximo e nós mesmos com os olhos de Deus.
Nós realizamos o bem não como escravos, que não são livres de agir de outra forma, mas fazemo-lo porque temos pessoalmente a responsabilidade pelo mundo; porque amamos a verdade e o bem, porque amamos o próprio Deus e portanto também as suas criaturas. Esta é a liberdade verdadeira, para a qual o Espírito Santo nos quer conduzir. Os Movimentos eclesiais querem e devem ser escolas de liberdade, desta liberdade genuína. Ali queremos aprender esta verdadeira liberdade, e não aquela dos escravos, que visa cortar para si mesma uma fatia do bolo de todos, mesmo que venha a faltar aos demais. Nós desejamos a liberdade verdadeira e grande, a dos herdeiros, a liberdade dos filhos de Deus. Neste mundo, tão repleto de liberdades simuladas que aniquilam o meio ambiente e o homem, queremos com a força do Espírito Santo aprender em conjunto a liberdade autêntica; construir escolas de liberdade; demonstrar aos outros, com a vida, que somos livres e como é bonito ser verdadeiramente livres na autêntica liberdade dos filhos de Deus.
Ao doar a vida e a liberdade, o Espírito Santo oferece também a unidade. Trata-se de três dons inseparáveis entre si. Já falei demasiado; no entanto, permiti-me dizer ainda uma breve palavra sobre a unidade. Para a compreender, pode ser-nos útil uma frase que, num primeiro momento, parece contrariamente afastar-nos dela. A Nicodemos que, na sua busca da verdade, vai de noite ter com Jesus com as suas interrogações, Ele responde: "O Espírito sopra onde quer" (Jo 3, 8).
Mas a vontade do Espírito não é arbítrio. É a vontade da verdade e do bem. Por isso, Ele não sopra em toda a parte, virando uma vez aqui e a outra ali; o seu sopro não nos dispersa, mas reúne-nos, porque a verdade une como o amor une.
O Espírito Santo é o Espírito de Jesus Cristo, o Espírito que une o Pai ao Filho no Amor que, no único Deus, doa e recebe. Ele une-nos de tal modo, que certa vez São Paulo pôde dizer: "Todos vós sois um só em Cristo Jesus" (Gl 3, 28). Com o seu sopro, o Espírito Santo impele-nos rumo a Cristo. O Espírito Santo age corporalmente, e não apenas sob os pontos de vista subjectivo, "espiritual". Aos discípulos que O consideravam somente um "espírito", Cristo ressuscitado disse: "Sou Eu mesmo! Tocai-me e olhai; um simples espírito um fantasma não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho" (cf. Lc 24, 39). Isto é válido para Cristo ressuscitado, em todas as épocas da história. Cristo ressuscitado não é um fantasma, não é somente um pensamento, uma ideia. Ele permaneceu o Encarnado ressuscitou Aquele que assumiu a nossa carne e continua sempre a edificar o seu Corpo, fazendo de nós o seu Corpo. O Espírito sopra onde quer, e a sua vontade é a unidade que se faz corpo, a unidade que encontra o mundo e o transforma.
Na Carta aos Efésios, São Paulo diz-nos que este Corpo de Cristo, que é a Igreja, contém junturas (cf. 4, 16), e chega a enumerá-las: são os Apóstolos, os Profetas, os Evangelistas, os Pastores e os Mestres (cf. 4, 11). Nos seus dons o Espírito é multiforme, como podemos ver aqui.
Se consideramos a história, se olhamos esta assembleia aqui na Praça de São Pedro então compreendemos como Ele suscita sempre novas dádivas; observamos como são diferentes os órgãos que Ele cria; e como, sempre de novo, age corporalmente. No entanto, nele a multiplicidade e a unidade caminham juntas. Ele sopra onde quer. E fá-lo de maneira inesperada, em lugares imprevistos e de maneiras precedentemente inimagináveis. E com que multiformidade e corporeidade o faz! É também precisamente aqui que a multiplicidade e a unidade são inseparáveis entre si. Ele quer a vossa multiformidade, e deseja que sejais o seu único corpo, na união com as ordens duradouras as junturas da Igreja, com os sucessores dos Apóstolos e com o Sucessor de São Pedro.
Ele não nos poupa o cansaço de aprender o modo de nos relacionarmos uns com os outros; mas demonstra-nos também que age em vista do único corpo e na unidade do único corpo. É exclusiva e precisamente assim que a unidade alcança a sua força e a sua beleza. Participai na edificação do único corpo! Os pastores estarão atentos a não apagar o Espírito (cf. 1 Ts 5, 19), e vós não cessareis de oferecer as vossas dádivas à comunidade inteira. Uma vez mais: o Espírito sopra onde quer. No entanto, a sua vontade é a unidade. Ele conduz-nos rumo a Cristo, no seu Corpo. "É a partir dele [de Cristo] diz-nos São Paulo que o Corpo inteiro, bem ajustado e unido, por meio de toda a espécie de junturas que O sustentam, segundo uma força à medida de cada uma das partes, realiza o seu crescimento como Corpo, para se construir a si próprio no amor" (Ef 4, 16).
O Espírito Santo deseja a unidade, quer a totalidade. Por este motivo, a sua presença demonstra-se finalmente também no impulso missionário. Quem encontrou algo de verdadeiro, de belo e de bom na sua própria vida o único tesouro autêntico, a pérola inestimável! corre para o compartilhar em toda a parte, na família e no trabalho, em todos os âmbitos da sua existência. E fá-lo sem qualquer temor, porque sabe que recebeu a adopção de filho; sem qualquer presunção, porque tudo é dádiva; e sem desânimo, porque o Espírito de Deus precede a sua acção no "coração" dos homens e como semente nas mais diversificadas culturas e religiões. Fá-lo sem fronteiras, porque é portador de uma boa notícia destinada a todos os homens e a todos os povos.
Estimados amigos, peço-vos que sejais ainda mais, muito mais, colaboradores no ministério apostólico universal do Papa, abrindo as portas a Cristo. Este é o melhor serviço da Igreja aos homens e, de maneira totalmente particular, aos pobres, a fim de que a vida da pessoa, uma ordem mais justa na sociedade e a convivência pacífica entre as nações encontrem em Cristo a "pedra angular" sobre a qual construir a autêntica civilização, a civilização do amor. O Espírito Santo oferece aos fiéis uma visão superior do mundo, da vida e da história, fazendo deles guardiães da esperança que não engana.
Portanto oremos ao Deus Pai, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, na graça do Espírito Santo, a fim de que a celebração da Solenidade do Pentecostes seja como um fogo ardente e um vento impetuoso para a vida cristã e para a missão de toda a Igreja. Deposito as intenções dos vossos Movimentos e das vossas Comunidades no Coração da Santíssima Virgem Maria, presente no Cenáculo juntamente com os Apóstolos; que Ela suplique a realização concreta das mesmas. Sobre todos vós, invoco a efusão dos dons do Espírito, a fim de que nesta nossa época consiga realizar-se a experiência de um renovado Pentecostes. Amém!
In Cor Eclesiam
VIGÍLIA DE ORAÇÃO PRESIDIDA
PELO PAPA JOÃO PAULO II DURANTE
O ENCONTRO DOS MOVIMENTOS ECLESIAIS
E DAS NOVAS COMUNIDADES
Sábado, 30 de Maio de 1998
PELO PAPA JOÃO PAULO II DURANTE
O ENCONTRO DOS MOVIMENTOS ECLESIAIS
E DAS NOVAS COMUNIDADES
Sábado, 30 de Maio de 1998
«Subitamente ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram, então, aparecer umas línguas à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios de Espírito Santo» (Act 2, 2-3).
Caríssimos Irmãos e Irmãs!
1. Com estas palavras os Actos dos Apóstolos introduzem-nos no coração do evento do Pentecostes; apresentam-nos os discípulos que, reunidos com Maria no Cenáculo, recebem o dom do Espírito. Realiza-se assim a promessa de Jesus e inicia o tempo da Igreja. A partir daquele momento o vento do Espírito levará os discípulos de Cristo até aos extremos confins da terra. Levá-los-á até ao martírio para o intrépido testemunho do Evangelho.
Aquilo que aconteceu em Jerusalém, há dois mil anos, é como se hoje à tarde se renovasse nesta Praça, centro do mundo cristão. Como outrora os Apóstolos, também nós nos encontramos reunidos num grande cenáculo de Pentecostes, desejando ardentemente a efusão do Espírito. Queremos professar aqui, com a Igreja inteira, que «o Espírito é o mesmo..., o Senhor é o mesmo... é o mesmo Deus que opera tudo em todos» (1 Cor 12, 4-6). Este é o clima que desejamos reviver, implorando os dons do Espírito Santo para cada um de nós e para o inteiro povo dos baptizados.
2. Saúdo e agradeço ao Cardeal James Francis Stafford, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos, as palavras que quis dirigir-me, também em vosso nome, no início deste encontro. Com ele saúdo os Senhores Cardeais e os Bispos presentes. Dirijo um pensamento de particular gratidão a Chiara Lubich, Kiko Arguello, Jean Vanier e Mons. Luigi Giussani pelos seus comoventes testemunhos. Juntamente com eles, saúdo os fundadores e os responsáveis pelas novas comunidades e movimentos aqui representados. É-me grato, por fim, dirigir-me a cada um de vós, Irmãos e Irmãs que pertenceis aos distintos movimentos eclesiais. Acolhestes com prontidão e entusiasmo o convite que vos fiz no Pentecostes de 1996 e preparastes-vos com cuidado, sob a guia do Pontifício Conselho para os Leigos, para este encontro extraordinário, que nos projecta para o Grande Jubileu do Ano 2000.
O evento de hoje é deveras inédito: pela primeira vez os movimentos e as novas comunidades eclesiais encontram-se, todos juntos, com o Papa. É o grande «testemunho comum» por mim desejado para o ano que, no caminho da Igreja rumo ao Grande Jubileu, é dedicado ao Espírito Santo. O Espírito Santo está aqui connosco! É Ele a alma deste admirável acontecimento de comunhão eclesial. Na verdade, «este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos e nele exultemos» (Sl 117, 24).
3. Em Jerusalém, há quase dois mil anos, no dia de Pentecostes, diante de uma multidão estupefacta e zombeteira por causa da inexplicável mudança notada nos Apóstolos, Pedro proclama com coragem: «Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós... a Este matastes, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-O» (Act 2, 22-24). Nas palavras de Pedro manifesta-se a autoconsciência da Igreja, fundada sobre a certeza de que Jesus Cristo está vivo, actua no presente e transforma a vida.
O Espírito Santo, já operante na criação do mundo e na Antiga Aliança, revela-Se na Encarnação e na Páscoa do Filho de Deus, e como que «explode» no Pentecostes para prolongar, no tempo e no espaço, a missão de Cristo Senhor. O Espírito constitui assim a Igreja como fluxo de vida nova, que circula dentro da história dos homens.
4. À Igreja que, segundo os Padres, é o lugar «onde floresce o Espírito» (Catecismo da Igreja Católica, n. 749), o Consolador deu recentemente com o Concílio Ecuménico Vaticano II um renovado Pentecostes, suscitando um dinamismo novo e imprevisto.
Sempre, quando intervém, o Espírito nos deixa maravilhados. Suscita eventos cuja novidade causa admiração; muda radicalmente as pessoas e a história. Esta foi a experiência inesquecível do Concílio Ecuménico Vaticano II, durante o qual, sob a guia do mesmo Espírito, a Igreja redescobriu como constitutiva de si mesma a dimensão carismática: «O Espírito Santo não só santifica e conduz o Povo de Deus por meio dos sacramentos e ministérios e o adorna com virtudes, mas "distribuindo a cada um os Seus dons como Lhe apraz" (1 Cor 12, 11), distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes, as quais os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos, proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja» (Lumen gentium, 12).
Os aspectos institucional e carismático são como que co-essenciais à constituição da Igreja e concorrem, ainda que de modo diverso, para a sua vida, a sua renovação e a santificação do Povo de Deus. É desta providencial redescoberta da dimensão carismática da Igreja foi que, antes e depois do Concílio, se consolidou uma singular linha de desenvolvimento dos movimentos eclesiais e das novas comunidades.
5. Hoje, a Igreja alegra-se ao constatar o renovado cumprimento das palavras do profeta Joel, que há pouco escutámos: «Derramarei o Meu Espírito sobre toda a criatura...» (Act 2, 17). Vós aqui presentes sois a prova palpável desta «efusão» do Espírito. Cada movimento difere do outro, mas todos estão unidos na mesma comunhão e para a mesma missão. Alguns carismas suscitados pelo Espírito irrompem como vento impetuoso, que arrebata e atrai as pessoas para novos caminhos de empenho missionário ao serviço radical do Evangelho, proclamando sem temor as verdades da fé, acolhendo como dom o fluxo vivo da tradição e suscitando em cada um o ardente desejo da santidade. Hoje, a todos vós reunidos aqui na Praça de São Pedro e a todos os cristãos, quero bradar: Abri-vos com docilidade aos dons do Espírito! Acolhei com gratidão e obediência os carismas que o Espírito não cessa de dispensar! Não esqueçais que cada carisma é dado para o bem comum, isto é, em benefício de toda a Igreja!
6. Pela sua natureza, os carismas são comunicativos e fazem nascer aquela «afinidade espiritual entre as pessoas» (cf. Christifideles laici, 24) e aquela amizade em Cristo que dá origem aos «movimentos». A passagem do carisma originário ao movimento acontece pela misteriosa atracção exercida pelo Fundador sobre quantos se deixam envolver na sua experiência espiritual. Desse modo, os movimentos reconhecidos oficialmente pelas autoridades eclesiásticas propõem-se como formas de auto-realização e reflexos da única Igreja. O seu nascimento e a sua difusão trouxeram à vida da Igreja uma novidade inesperada, e por vezes até explosiva. Isto não deixou de suscitar interrogativos, dificuldades e tensões; às vezes comportou, por um lado, presunções e intemperanças e, por outro, não poucos preconceitos e reservas. Foi um período de prova para a sua fidelidade, uma ocasião importante para verificar a genuinidade dos seus carismas. Hoje, diante de vós, abre-se uma etapa nova, a da maturidade eclesial. Isto não quer dizer que todos os problemas tenham sido resolvidos. É, antes, um desafio. Uma via a percorrer. A Igreja espera de vós frutos «maduros» de comunhão e de empenho.
7. No nosso mundo, com frequência dominado por uma cultura secularizada que fomenta e difunde modelos de vida sem Deus, a fé de muitos é posta à dura prova e, não raro, é sufocada e extinta. Percebe-se, então, com urgência a necessidade de um anúncio forte e de uma sólida e aprofundada formação cristã. Como é grande, hoje, a necessidade de personalidades cristãs amadurecidas, conscientes da própria identidade baptismal, da própria vocação e missão na Igreja e no mundo! E eis, então, os movimentos e as novas comunidades eclesiais: eles são a resposta, suscitada pelo Espírito Santo, a este dramático desafio do final de milénio. Vós sois esta resposta providencial. Os verdadeiros carismas não podem senão tender para o encontro com Cristo nos Sacramentos. As verdades eclesiais a que aderis ajudaram-vos a redescobrir a vocação baptismal, a valorizar os dons do Espírito recebidos na Confirmação, a confiar-vos à misericórdia de Deus no Sacramento da Reconciliação e a reconhecer na Eucaristia a fonte e o ápice da inteira vida cristã. E de igual modo, graças a essa forte experiência eclesial, surgiram esplêndidas famílias cristãs abertas à vida, verdadeiras «igrejas domésticas», desabrocharam muitas vocações ao sacerdócio ministerial e à vida religiosa, assim como novas formas de vida laical inspiradas nos conselhos evangélicos. Nos movimentos e nas novas comunidades aprendestes que a fé não é questão abstracta, nem vago sentimento religioso, mas vida nova em Cristo, suscitada pelo Espírito Santo.
8. Como conservar e garantir a autenticidade do carisma? É fundamental, a respeito disso, que cada movimento se submeta ao discernimento da Autoridade eclesiástica competente. Por esta razão, nenhum carisma dispensa da referência e da submissão aos Pastores da Igreja. Com palavras claras o Concílio escreve: «O juízo acerca da sua autenticidade e recto uso pertence àqueles que presidem na Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito mas julgar tudo e conservar o que é bom (cf. 1 Ts 5, 12.19-21)» (Lumen gentium, 12). Esta é a necessária garantia de que a estrada que percorreis é justa! Assim, na confusão que reina no mundo de hoje é fácil errar, ceder às ilusões. Na formação cristã cuidada pelos movimentos jamais falte o elemento desta confiante obediência aos Bispos, sucessores dos Apóstolos, em comunhão com o Sucessor de Pedro! Conheceis os critérios de eclesialidade das agregações laicais, presentes na Exortação Apostólica Christifideles laici (cf. n. 30). Peço-vos que lhes deis adesão sempre com generosidade e humildade, inserindo as vossas experiências nas Igrejas locais e nas paróquias, sempre permanecendo em comunhão com os Pastores e atentos às suas indicações.
9. Jesus disse: «Vim lançar fogo sobre a terra; e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado?» (Lc 12, 49); enquanto a Igreja se prepara para cruzar o limiar do terceiro milénio, acolhamos o convite do Senhor, para que o Seufogo se propague no nosso coração e no dos irmãos. Hoje, deste cenáculo da Praça de São Pedro, eleva-se uma grande oração: Vinde Espírito Santo, vinde e renovai a face da terra! Vinde com os vossos sete dons! Vinde Espírito de vida, Espírito de verdade, Espírito de comunhão e de amor! A Igreja e o mundo têm necessidade de Vós. Vinde Espírito Santo e tornai sempre mais fecundos os carismas que concedeis. Dai nova força e impulso missionário a estes vossos filhos e filhas aqui reunidos. Dilatai o coração deles, reavivai o seu empenho cristão no mundo. Tornai-os corajosos mensageiros do Evangelho, testemunhas de Jesus Cristo ressuscitado, Redentor e Salvador do homem. Fortalecei o seu amor e a sua fidelidade à Igreja. A Maria, primeira discípula de Cristo, Esposa do Espírito Santo e Mãe da Igreja, que acompanhou os Apóstolos no primeiro Pentecostes, dirigimos o nosso olhar para que nos ajude a aprender do seu Fiat a docilidade à voz do Espírito. Hoje, desta Praça, Cristo repete a cada um de vós: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a todas as criaturas» (Mc 16, 15). Ele conta com cada um de vós, a Igreja conta convosco. «Eis – assegura o Senhor – Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Estou convosco. Amém! Em seguida o Santo Padre dirigiu-se de novo aos milhares de peregrinos, assim se expressando, respectivamente em inglês, francês, espanhol, alemão e polaco: Caros amigos de língua inglesa, na vigília desta grande festa de Pentecostes, oro para que o Espírito Santo aumente a chama do Seu amor nos vossos corações, a fim de poderdes tornar-vos cada vez mais activos na difusão da mensagem evangélica no mundo do novo Milénio. A Igreja precisa do vosso empenho e do vosso amor! Saúdo os francófonos presentes nesta audiência. Encorajo-os a ser cada dia testemunhas de Cristo, que eles encontraram pessoalmente, e a participar na edificação da Igreja, em união com os pastores diocesanos. Saúdo cordialmente todas as pessoas e grupos de língua espanhola, que participam neste grande encontro eclesial, e peço ao Espírito que vos fortaleça e console na vossa missão como pedras vivas da sua Igreja. Com grande alegria saúdo também vós, caros amigos dos países de língua alemã, que pertenceis a um movimento ou a uma comunidade de espiritualidade: sois chamados a redescobrir os vossos carismas e a edificar o Corpo de Cristo. O Espírito Santo de Deus seja a vossa força e energia! Saúdo de coração os representantes dos movimentos eclesiais provenientes da Polónia. Estou contente por terdes vindo aqui juntamente com o Cardeal Franciszek, com os Bispos e os Sacerdotes. A vossa presença é um testemunho daquela vitalidade da Igreja na Polónia, que é o fruto da acção do Espírito Santo e da fé profunda dos homens. O Espírito Consolador vos guie na paz, a vós e a todos os crentes no nosso País, rumo ao novo Milénio.
Diletos Filhos da Igreja
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
NO DOMINGO DE PENTECOSTES
31 de Maio de 1998
NO DOMINGO DE PENTECOSTES
31 de Maio de 1998
1. Credo Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem: Creio no Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida.
Com as palavras do Símbolo niceno-constantinopolitano, a Igreja proclama a sua fé no Paráclito; fé que nasce da experiência apostólica do Pentecostes. O texto dos Actos dos Apóstolos, que a Liturgia hodierna propôs à nossa meditação, recorda com efeito as maravilhas operadas no dia de Pentecostes, quando os Apóstolos constataram com grande admiração o cumprimento das palavras de Jesus. Ele, como refere a perícope do Evangelho de São João há pouco proclamada, tinha assegurado na vigília da Sua paixão: «Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para estar convosco para sempre» (Jo 14, 16). Este «Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, Esse ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito» (ibid., 14, 26).
E o Espírito Santo, ao descer sobre eles com força extraordinária, tornou-os capazes de anunciar ao mundo inteiro o ensinamento de Jesus Cristo. Era tão grande a sua coragem, tão segura a sua decisão, que estavam dispostos a tudo, até a dar a vida. O dom do Espírito havia-lhes libertado as energias mais profundas, empenhando-as no serviço da missão que lhes fora confiada pelo Redentor. E será o Consolador, o Parakletos, a guiá-los no anúncio do Evangelho a todos os homens. O Espírito ensinar-lhes-á toda a verdade, haurindo-a da riqueza da palavra de Cristo, a fim de que eles, por sua vez, a comuniquem aos homens de Jerusalém e ao resto do mundo.
2. Como não dar graças a Deus pelos prodígios que o Espírito não cessou de realizar nestes dois milénios de vida cristã? O evento de graça do Pentecostes tem, com efeito, continuado a produzir os seus maravilhosos frutos, suscitando em toda a parte ardor apostólico, desejo de contemplação, empenho em amar e servir com total dedicação a Deus e aos irmãos. Ainda hoje o Espírito alimenta na Igreja gestos pequenos e grandes de perdão e de profecia, dá vida a carismas e dons sempre novos, que atestam a Sua acção incessante no coração dos homens.
Disto é prova eloquente esta solene Liturgia, na qual estão presentes numerosos membros dos Movimentos e das novas Comunidades, que nestes dias celebraram em Roma o seu Congresso mundial. Ontem, nesta mesma Praça de São Pedro, vivemos um inesquecível encontro de festa, com cânticos, orações e testemunhos. Experimentámos o clima do Pentecostes, que tornou quase visível a fecundidade inexaurível do Espírito na Igreja. Movimentos e novas Comunidades, expressões providenciais da nova primavera suscitada pelo Espírito com o Concílio Vaticano II, constituem um anúncio do poder do amor de Deus que, superando divisões e barreiras de todo o género, renova a face da terra, para construir nela a civilização do amor.
3. Escreve São Paulo na Carta aos Romanos, há pouco proclamada: «Todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus» (8, 14).
Estas palavras oferecem ulteriores pontos de reflexão para compreender a acção admirável do Espírito na nossa vida de crentes. Elas abrem-nos a estrada para chegarmos ao coração do homem: o Espírito Santo, que a Igreja invoca para que dê «luz aos sentidos», visita o homem no íntimo e toca directamente a profundidade do seu ser.
Continua o Apóstolo: «Se o Espírito habita em vós, não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito... Aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus» (cf. Rm 8, 9.14). Contemplando, depois, a acção misteriosa do Paráclito, acrescenta com enlevo: «Vós não recebestes um espírito de escravidão..., recebestes, pelo contrário, um espírito de adopção, pelo qual clamamos: "Abba, Pai!". O próprio Espírito atesta, em união com o nosso espírito, que somos filhos de Deus» (Rm 8, 15-16). Eis-nos no centro do mistério! É no encontro entre o Espírito Santo e o espírito do homem que se situa o coração mesmo da experiência vivida pelos Apóstolos no Pentecostes. Esta experiência extraordinária está presente na Igreja, nascida daquele evento, e acompanha-a no decurso dos séculos.
Sob a acção do Espírito Santo, o homem descobre até ao fundo que a sua natureza espiritual não é velada pela corporeidade mas, ao contrário, é o espírito que dá sentido verdadeiro ao próprio corpo. Com efeito, vivendo segundo o Espírito, ele manifesta plenamente o dom da sua adopção como filho de Deus.
Nesse contexto, insere-se bem a questão fundamental da relação entre a vida e a morte, a que se refere Paulo ao observar textualmente: «Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis» (Rm 8, 13). É precisamente assim: a docilidade ao Espírito oferece ao homem contínuas ocasiões de vida.
4. Caríssimos Irmãos e Irmãs, é para mim motivo de grande alegria saudar todos vós, que quisestes unir-vos a mim ao dar graças ao Senhor pelo dom do Espírito. Essa festa toda missionária alarga o nosso olhar para o mundo inteiro, com um pensamento particular aos muitos missionários sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos que prodigalizam a sua vida, muitas vezes em condições de enormes dificuldades, para a difusão da verdade evangélica.
Saúdo-vos a vós aqui presentes: os Senhores Cardeais, os Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio, os numerosos membros dos vários Institutos de Vida Consagrada e de Vida Apostólica, os jovens, os doentes e de modo especial quantos vieram de muito longe para esta solene cerimónia.
Uma recordação particular aos Movimentos e às novas Comunidades, que ontem tiveram o seu encontro e que hoje vejo presentes em grande número. Não tão grande como ontem, mas sempre grande! Dirijo um pensamento muito especial aos meninos e aos jovens que estão para receber os Sacramentos da Confirmação e da Eucaristia. Que exaltantes perspectivas apresentam as palavras do Apóstolo a cada um de vós, caríssimos! Através dos gestos e das palavras do Sacramento da Confirmação, ser-vos-á dado o Espírito Santo que aperfeiçoará a vossa conformidade a Cristo, já iniciada no Baptismo, para vos tornar adultos na fé e testemunhas autênticas e corajosas do Ressuscitado. Com a Confirmação, o Paráclito abre diante de vós um caminho de incessante redescoberta da graça de adopção como filhos de Deus, que vos tornará alegres investigadores da Verdade.
A Eucaristia, alimento de vida imortal, que pela primeira vez haveis de saborear, tornar-vos-á prontos a amar e a servir os irmãos, capazes de dar ocasiões de vida e de esperança, livres do domínio da «carne» e do temor. Ao deixar-vos guiar por Jesus, podereis experimentar de maneira concreta na vossa vida a maravilhosa acção do seu Espírito, de que fala o apóstolo Paulo no oitavo capítulo da Carta aos Romanos. Esse texto, cujo conteúdo resulta particularmente actual neste ano dedicado ao Espírito Santo, deveria ser lido hoje com maior atenção, para honrar a acção que o Espírito de Cristo realiza em cada um de nós.
5. Veni, Sancte Spiritus!
Também a magnífica sequência, que contém uma rica teologia do Espírito Santo, mereceria ser meditada estrofe por estrofe. Deter-nos-emos aqui somente na primeira palavra: Veni, vinde! Ela evoca a expectativa dos Apóstolos, depois da Ascensão de Cristo ao céu.
Nos Actos dos Apóstolos, Lucas apresenta-no-los reunidos no Cenáculo em oração com a Mãe de Jesus (cf. 1, 14). Que palavra melhor do que esta podia exprimir a sua oração: «Veni, Sancte Spiritus»? Isto é, a invocação d'Aquele que no início do mundo pairava sobre as águas (cf. Gn 1, 2), e que Jesus lhes prometera como Paráclito?
O coração de Maria e dos Apóstolos naqueles momentos está voltado para a Sua vinda, num alternar-se de fé ardente e de confissão da insuficiência humana. A piedade da Igreja interpretou e transmitiu este sentimento no cântico do «Veni, Sancte Spiritus». Os Apóstolos sabem que é árdua a obra que lhes foi confiada por Cristo, mas decisiva para a história da salvação da humanidade. Serão eles capazes de levá-la a cabo? O Senhor tranquiliza os seus corações. A cada passo da missão que os levará a anunciar e a testemunhar o Evangelho até aos pontos mais remotos do globo, poderão contar com o Espírito prometido por Cristo. Os Apóstolos, ao recordarem-se da promessa de Cristo, nos dias que vão da Ascensão ao Pentecostes, concentrarão todo o pensamento e sentimento naquele veni – vinde!
6. Veni, Sancte Spiritus! Iniciando assim a sua invocação ao Espírito Santo, a Igreja faz próprio o conteúdo da oração dos Apóstolos reunidos com Maria no Cenáculo; antes, prolonga-a na história e torna-a sempre actual.
Veni, Sancte Spiritus! Assim continua a repetir em cada ângulo da terra com imutável ardor, firmemente consciente de dever permanecer de forma ideal no Cenáculo, em perene espera do Espírito. Ao mesmo tempo, ela sabe que do Cenáculo deve sair pelas estradas do mundo, com a tarefa sempre nova de dar testemunho do mistério do Espírito.
Veni, Sancte Spiritus! Oramos assim com Maria, santuário do Espírito Santo, preciosíssima morada de Cristo entre nós, para que nos ajude a ser templo vivo do Espírito e testemunhas incansáveis do Evangelho.
Veni, Sancte Spiritus! Veni, Sancte Spiritus! Veni, Sancte Spiritus!
Louvado seja Jesus Cristo!
Carta Aberta
Amados irmãos em Cristo Senhor:
Seja-vos concedida toda paz e todo bem que brotam do Coração transpassado de Jesus Ressuscitado.
Com grande alegria rompo o silêncio desses últimos dias para achegar-me ao coração de cada alma apaixonada por Cristo, a cada irmão de comunidade que deseja se dar inteiramente ao Amado de nossas almas para fazê-lo conhecido e amado por todos os homens. Celebramos juntos a Solenidade Da Encarnação do Verbo, mistério cristológico de nossa vocação, festa de nossa consagração de vida ao Senhor como autênticos escravos de Amor1 que somos.
Contemplar Maria neste dia revela muito do que Deus quer de nós. A Obra que o Senhor está fazendo em nós não é para nós, mas para que sirvamos a Igreja e a humanidade inteira com a entrega total e radical de nossa vida vivida para fazer Jesus amado por cada homem da face da Terra, preparando a sua vinda gloriosa2 com o derramento do nosso sangue dia a dia.
Só contemplaremos o Novo de Deus se de fato fizermos de nossa vida holocausto de amor. Deus quer fazer nós uma “humanidade de acréscimo” 3 para seu Filho Jesus, mas não fará essa Obra em nós e no mundo, através de nós, sem a nossa colaboração, sem o nosso sim generoso, nosso sim esponsal. Se quisermos viver a nossa vida como todo mundo a vive, o nosso namoro como qualquer outro cristão vive, se não queremos relacionamentos Novos, amizades Novas, famílias Novas, celibatários Novos, sacerdotes Novos, seminaristas Novos, então, nossa vocação não é a Comunidade Ostensório Vivo. A comunidade Ostensório Vivo faz parte do Novo que o Senhor tem dado a sua Igreja, nossa vocação é assumirmos o Novo de Deus para nós com tudo o que isso comporta.
“Não fiqueis a lembrar coisas passadas, não vos preocupeis com acontecimentos antigos. Eis que vou fazer uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis? Com efeito, estabelecerei um caminho no deserto, e rios nos lugares ermos. Os animais selvagens me honrarão, sim, os chacais e os avestruzes, porque fiz jorrar água no deserto, e rios nos lugares ermos, a fim de dar de beber a meu povo, o meu eleito. O povo que formei para mim proclamará meu louvor.” (Is: 43, 18- 21) Essa palavra é para nós, primeiro o Senhor deseja fazer isso em nós e por meio de nós Ele deseja fazer isso na sua Igreja, sua Esposa dileta!
Quando o Senhor nos deu O Novo do Carisma Ele o manifestou como uma graça em nós mas para a edificação da Igreja e como serviço de amor a Humanidade inteira.O sonho que inspirou nosso nome acontecia na praça de São Pedro em Roma, estávamos nas mãos do Santo Padre que conosco abençoava os fiéis e o mundo inteiro. Muitas profecias que de Deus recebemos fazem que nossos olhos saiam da nossa pequenez de visão e nos coloca diante do plano de Deus sobre nós: Deus nos constitui para sermos santos na Igreja do tempo de hoje, para sermos as testemunhas da sua ressurreição, os mártires da Igreja hoje. Não criemos sonhos de uma vida bucólica e calma! O Senhor nos convocou como um exército intrépido que deve caminhar na frente de todo o seu Povo, conduzindo a humanidade para a realização da real vontade de nosso Deus e Senhor!
Nossa Comunidade tem crescido segundo o que Deus mesmo quer de nós! Estamos responsáveis pela santificação de numerosos irmãos na fé pelos diversos serviços pastorais que exercemos. Lembro-vos, amados, que aí onde Deus te colocou, o colocou para que em você se manifeste Cristo no seu Ostensório.
Nesta solenidade quero recordar que nada na nossa vida é nosso em primeiro lugar, tudo é DELE, Ele, e somente Ele, é o senhor de nossas vidas e de tudo o que temos e somos. Nossa vocação abraça os três estados de vida e diversas formas de vida. Contudo, não podemos viver essa área de nossa vida como se fosse fruto de uma decisão pessoal do quero fazer da minha vida. Deus, ao me criar, me deu uma vocação a qual devo responder generosamente. Não posso simplesmente namorar ou decidir entrar no seminário ou abraçar o celibato. Tudo isso exige de mim e da comunidade um profundo discernimento.
Na vida comunitária não se faz nenhum discernimento sozinho! Tudo eu vivo com Deus na comunidade para o serviço da Igreja.
Neste ano, teremos muitas mudanças de estruturas na comunidade. A partir de julho começarão as formações pessoais na Comunidade. Peço que nos façamos disponíveis ao que Deus tem querido de nós!
Tenho rezado sobre as últimas dificuldades que estamos enfrentando e acredito que muito de tudo o que Deus tem permitido em nosso meio é para que aprendamos que o essencial na nossa vocação é o amor esponsal, é estar com o Amado mais e mais, é sermos contemplativos no coração do mundo. Sem oração não há formação e conversão ao carisma, não há novo, não seremos santos como Deus quer que sejamos!
Agora que estamos para começar a Semana Santa, na qual, pela liturgia, seremos mergulhados no Mistério de Cristo Senhor Ressuscitado que Passou Pela Cruz peço a Virgem Maria, Mãe de Deus, que nos faça viver com intensidade cada celebração e que ao longo desses dias nos faça compreender e contemplar o Novo que Deus quer fazer em nós!
Que Ela nos forme qual autênticos ostensórios do Senhor para maior honra e glória de Cristo Senhor nosso.
Et verbum caro factum est!
Pedro Paulo Rodrigues Santos OV
25 de março de 2010.
Solenidade da Encarnação do Verbo.
ESTADO DE VIDA
A Santa Igreja Católica é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo e, pelo batismo, nós fomos enxertados neste corpo e, por Cristo, na vida da Santíssima Trindade. Este corpo é composto por diversos membros, com diversas funções, movidos, porém, por um mesmo Espírito que atua em todos para a glória do Pai, por Cristo Senhor Nosso.
A Comunidade Ostensório Vivo tem a vocação de ser um povo novo, uma família nova no seio da Igreja, para edificá-la e colaborar na sua missão. Por isso, dentro da Comunidade se encontram diversas formas e estados de vida reunidos ao redor do Carisma Ostensório Vivo, sendo vivenciados numa complementaridade que é profecia da Santíssima Trindade.
Nossa vocação comum é de sermos Ostensório Vivos como o foi Maria, sermos autenticas almas esposas de Jesus, eleitas pelo Pai e santificadas pelo Espírito; as mais simples e pequenas, tomadas de um amor ardente e incondicional por Jesus. Essa vocação à santidade que nasce do nosso batismo e é uma resposta de amor ao chamado de Deus para nós deve nos impulsionar a descobrir qual é a vocação específica pela qual Ele quer que sirvamos à Igreja e a humanidade. Toda vocação uma entrega pessoal a Deus para servi-Lo na Igreja e na humanidade.
Ninguém pode ser constrangido a abraçar um estado de vida, esse é um caminho que deve ser percorrido na liberdade de Deus que escolhe e do irmão que atende ao chamado específico de Deus. Ninguém pode escolher para si o chamado de Deus, toda vocação é um dom que nasce do Coração de Deus ao qual nós aderimos. Nosso estado de vida, nossa vocação é decidida por Deus, na sua liberdade criadora, não é fruto das minhas aptidões ou escolhas pessoais.
Com isso no coração podemos começar um caminho de discernimento do nosso estado de vida. Como nossa vocação é sermos primeiro Ostensórios Vivos o nosso discernimento vocacional é feito em comunidade. Isto é, nosso caminho de discernimento é acompanhado pela oração de um irmão de comunidade que me acompanha nos caminhos do Senhor, um irmão com quem eu faço o discernimento do que Deus está pedindo. Esse irmão é instrumento de Deus para que se faça o discernimento com objetividade, despido dos romantismos que podem rondar o nosso coração no período de discernimento. Ninguém faz um autentico discernimento sozinho e nem existe discernimento instantâneo. O discernimento é feito com duas pessoas, num processo no qual o tempo é de Deus, e se invocando o Espírito Santo.
O primeiro passo para o discernimento é colocar-se diante de Deus para fazer a vontade d’Ele, não a minha. Não posso começar um discernimento querendo dar minha resposta pessoal (querendo namorar, casar, ser padre ou celibatário), tenho que estar disponível para cumprir o que Deus tem para mim, inclinando minha vontade à vontade amorosa de Deus. Depois eu devo procurar um irmão de comunidade que possa me auxiliar no caminho do discernimento e devo falar só com ele do meu processo de discernimento. Quando nos colocamos em qualquer caminho para discernir o querer de Deus é muito bom fazer silêncio, para que seja só Deus falando e que nenhuma criatura nos influencie. O caminho de discernimento é feito na solidão do deserto no qual Deus nos fala no silencio e na contemplação.
Depois eu devo começar a ler minha vida e ver o marcos que Deus deixou na minha história de salvação pessoal, ver quem sou e o que Deus foi mostrando ao longo da minha caminhada com Ele. Tudo isso vou partilhando com meu irmão.
Então começo a ver o que realmente eu conheço dos estados de vida, se sei o que é matrimônio, sacerdócio ou vida celibatária realmente; se conheço o caminho de santificação próprio de cada estado de vida. Não se faz discernimento de vocação na ignorância ou na sorte, se escuta Deus, se escuta a Igreja e se escuta o próprio coração e a própria história pessoal.
Todos esses momentos vividos com muita calma e confiança em Deus, vivendo o caminho esponsal da nossa vocação: Santa Missa, adoração, leitura da Palavra, oração comunitária, escravidão, louvor carismático, mortificação, escuta de Deus, silêncio, liberdade interior e paz de espírito.
Quando eu perceber junto com me irmão qual é a real vontade de Deus para minha vida eu comunico a comunidade para que reze por mim, para que me ajude a responder ao chamado de Deus.
Entenda que esse caminho não é só para os que pretendem discernir a vocação para o celibato consagrado ou para o ministério sacerdotal. Na comunidade, em todos os estados de vida, somos irmãos entre irmãos, portanto, esse discernimento se aplica também aos que são vocacionados ao matrimônio. Que na comunidade não se comece um namoro a não ser que se tenha feito um sério discernimento vocacional que tenha nos apontado ao matrimônio.
Além disso, que não se comece um namoro de qualquer modo. Que o namoro seja precedido de um bom e longo tempo de conhecimento e amizade, sem pretensão de imediata de namoro, que antes se conheça o irmão que comigo caminha rumo à vontade de Deus. Caso essa pessoa seja a que meu coração ama e reconhece como uma resposta de Deus à minha vocação, então, juntos faremos um tempo prolongado de oração e escuta de Deus, de crescimento comum na intimidade do Amado de nossas almas. Na comunidade Ostensório Vivo não se começa um namoro sem oração, não se começa um namoro por carência. Na comunidade o namoro é tempo de preparação e formação para o matrimônio. Tudo isso vivido e partilhado com um irmão de comunidade.
Quando vivido desse modo o discernimento nos prepara para sermos santos Ostensórios Vivos-sacerdotes, Ostensórios Vivos-esposos, Ostensórios Vivos- celibatários. Não se pode ter pressa no caminho de Deus, marchamos no tempo d’Ele e não no nosso. O que Deus nos pede é que nossa vida consagrada totalmente a Ele seja, em tudo, um sinal do Cristo Ressuscitado que Passou pela Cruz e que é a nossa esperança.
Como os virgens do Senhor, nos preparemos para seguirmos o Cordeiro Imolado, mas de Pé por onde Ele for, semeando por nossa vida a sua Palavra e fazendo-O amado na entrega de nós mesmos na vocação que d’Ele recebemos. Como em Maria, que se cumpra em nós a Palavra do Senhor!
LECTIO DIVINA
“Por vontade própria Ele nos gerou pela palavra de verdade, a fim de sermos como que as primícias dentre suas criaturas. (...) Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos! Com efeito, aquele que ouve a Palavra e não a põe em prática, assemelha-se ao homem que, observando seu rosto no espelho, se limita a observar-se e vai-se embora, esquecendo-se logo da sua aparência.” (Tg 1, 18.22-24)
“...nos gerou pela palavra de verdade”
É em Cristo que todo cristão é gerado, e é dele que deve se alimentar para chegar à idade de sua estatura. Cristo é a Palavra do Pai feita carne, é o Verbo encarnado. Portanto, logo nos diz a Igreja – no concílio Vaticano II – que a Palavra de Deus possui a mesma dignidade que as espécies eucarísticas: sua Palavra é Ele mesmo . Sendo assim, é pela Palavra nas Sagradas Escrituras que todo cristão é formado e gerado.
Por sua vez, ser Ostensório Vivo é ostentar (mostrar/transparecer/refletir) o próprio Cristo através de nossas vidas. Todavia, como já sabemos, um ostensório pode estar vazio e não ter valor algum... Daí que é na Eucaristia que está a nossa razão de ser. Contudo, enquanto a Eucaristia é alimento sacramental eficaz para nossa alma, onde se concretiza a união esponsal de nossa vocação, lembremos que esse mesmo sacramento só nos vem pelo poder da Palavra de Jesus. Assim vemos no Alma esponsal:
Ora, o caminho de realização de nossa vocação se dá de modo todo interior e é um caminho de busca constante do Amado em nossa alma, busca que realiza nossa vocação, uma vez que O tendo encontrado em nós, O podemos comunicar. Nosso caminho interior é um caminho de transubstanciação (...). A Palavra de Deus vai se tornando carne em nossa carne, primeiro pela meditação diária e depois pelo esforço de transformá-la em vida.
Santo Irineu, um dos Padres da Igreja, diz que foi pela força da Palavra que Cristo transformou o vinho e o pão no seu Corpo e no seu Sangue. Ou seja, assim como acontece no sacramento (em que pela força das palavras de Jesus repetidas pelo sacerdote), será apenas pela leitura atenta da Palavra de Deus que essa transubstanciação acontecerá em nossas vidas. Só assim seremos gerados conforme a Imagem do Verbo. Poderemos, então, cumprir a ordem que Deus nos deu através de S. Tiago – acima citado:
“Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes”
Muito vemos em nossa vida a grande dificuldade de levarmos o que meditamos, o que rezamos com a Palavra de Deus para nossa vida concreta. Muitas vezes acabamos de participar da Santa Missa e já não lembramos o evangelho do dia. Fazemos propósitos, mas acabamos esquecendo-os. Nesse sentido que apresentamos então a prática da Lectio divina, na nossa formação.
“A Lectio Divina é o exercício da escuta da Palavra, que recolhe o mistério do Verbo Encarnado e penetra no mistério do próprio Deus.” Lectio Divina é um termo latim que significa literalmente leitura divina. É o modo mais correto de leitura da Palavra de Deus ensinado pela Igreja desde os Padres (os primeiros pais da Igreja – ligados aos apóstolos). Trata-se da leitura orante da Palavra de Deus.
A Lectio divina não é uma exegese aprofundada da Sagrada Escritura, nem se requer um saber teológico de um doutor. A única coisa que se requer para uma boa LD é o desejo e anseio de um encontro profundo com Deus através da leitura da sua Palavra, e um desejo que esse encontro se torne fecundo para todo o seu dia.
Na vocação Ost. Vivo, a LD é a base fundamental de toda a nossa formação espiritual, lembrando, pois, que nosso modelo é sempre a Virgem Maria. É na sua vida, no seu exemplo de intimidade e escuta da Palavra de Deus que se encontra o fundamento dessa nossa prática. Nesse sentido – como também nos ensina a Santa Mãe Igreja – que a LD se fará concretamente em 3 degraus: lectio, meditatio e oratio.
1. A lectio: quer dizer leitura; ler e reler (3, 4, quantas vezes forem necessárias) o texto para fazer emergir os elementos mais significativos, mais importantes. Mesmo quando é um texto que estamos “cansados” de ouvir, é nesse degrau que vamos encontrar elementos novos que antes não tínhamos prestado atenção. Por isso aqui, como em todo o processo é necessário ter papel e caneta nas mãos: anotar as palavras significativas, os verbos que chamam atenção; prestar atenção nos tempos verbais; ajuda também tentar buscar na memória, como na Sag. Esc. a ressonância dessas palavras, ou a figura das pessoas (Abraão, Moisés, Davi...), como também fatos em outros livros da Sag. Esc. parecidos com este. Assim o texto que você lê toma um corpo maior, toma sentido de real memorial, abre horizontes; é iluminado pelas palavras de Jesus numa outra passagem ou pelas de São Paulo...
Por ex. no texto que citamos: Palavra: lembremos o Gn – “Deus criou todas as coisas por meio de sua Palavra”; em Jo – “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”; Palavra de Verdade: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
2. A meditatio. É o passo sucessivo à lectio, por isso supõe que o texto tenha sido “ruminado”, primeiramente. É o momento de confrontar a própria vida com o texto e meditar: o que Deus me fala aqui? Que virtudes ou atitudes dessas ainda não tenho ou preciso aperfeiçoar? O que Jesus me fala por essa sua atitude?
É aqui que vamos tirar a PALAVRA-DO-DIA. Esse é o momento chave para que aquilo que meditamos não se disperse durante o nosso dia. Dentre tudo o que você meditou grave uma palavra (pode ser também uma frase); qual é a Palavra que Deus lhe dirige neste dia? E durante o dia, em todos os seus afazeres relembre esta palavra, a qual lhe ajudará a relembrar toda a sua meditação e oração. Esse é o modelo mariano de escuta da Palavra:
1. Guardar a Palavra
2. Permanecer na Palavra
3. Realizar a Palavra.
É aqui que também entra o papel do exame de consciência. Para dar bons frutos na caminhada é importantíssimo que todos os dias examinemos se fomos fiéis à vontade do Senhor naquele dia. “Por isso terminamos o nosso dia repetindo: ‘Comecemos a servir a Deus, pois até agora nada fizemos’; vivemos em uma conversão diária, até chegarmos à estatura de Cristo, Senhor Nosso.” Para corresponder melhor a esse objetivo é mais proveitoso que se faça a LD de manhã, para que ao final do dia, antes de dormir, façamos nosso exame de consciência baseados nessa Palavra-do-Dia: será que fiz essa PALAVRA se tornar carne durante o meu dia?
3. A oratio. Terceiro passo da LD, é o momento em que, depois de certo tempo de meditação você pode começar a orar; essas Palavras do Senhor lhe levam a rezar... Contudo, lembrando que essa prática se trata de leitura orante, durante toda a LD, você reza: começa pedindo as luzes do Espírito para compreender o que o Senhor lhe fala na leitura; pede o Espírito que lhe mostre o que tem a ver com sua vida; e louva-o pela sua Palavra e pede a graça para cumprir os propósitos para o seu dia. Esse é o momento do encontro profundo com Deus. O momento também onde é Ele que lhe fala agora...
A oratio pode, então, desembocar na contemplatio, isto é, este momento de intimidade com a presença de Deus; a contemplação dos seus mistérios; a escuta das suas inspirações e moções.
Quanto ao tempo para uma boa LD, não menos que 25 a 30 minutos. Quanto ao texto que se vai ler, muito recomendável é acompanhar o ritmo litúrgico da Igreja, ou seja, usar das leituras litúrgicas do dia, porém é bom que se prenda em apenas uma (ou 1ª ou 2ª leitura ou o Evangelho do dia) – o quanto isso não vai ajudar também a viver o espírito da liturgia da Igreja.
Enfim, corramos ao encontro do Senhor através de sua Palavra, e deixemo-nos nos transubstanciar por ela, só assim seremos abrasados do amor esponsal:
O amor esponsal é abrasado no coração dos que se colocam na presença do Senhor Eucarístico para ouvi-lo com a sincera disposição de deixar-se transformar pela Palavra.