Estamos iniciando mais uma semana deste maravilhoso tempo
que a Igreja nos propõe: a quaresma. Esse é um momento precioso para a nossa
quaresma, pois estamos já a algumas semanas nos esforçando na fidelidade aos
exercícios quaresmais e, ao mesmo tempo, estamos iniciando uma nova semana,
então é um bom momento para pararmos e revermos o caminho trilhado até aqui.
Acredito que
sem essa parada com Deus, para esse tempo de revisão dos passos dados, nós
corremos o risco de chegarmos ao final da quaresma com um amargo gosto de
frustração por não termos cumprido o propósito que fizemos na quarta-feira de
cinzas, ou, talvez, já até tenhamos fraquejado nestas semanas que já se foram e
estejamos nos sentindo, já, desmotivados ou cansados....
A maioria das
nossas quedas neste tempo litúrgico e a causa de perdemos tantas graças que
Deus reserva para nós neste tempo tem origem no fato de que não entendemos bem a
quaresma, achamos que ela é um fim em si; esquecemos que ela é um tempo de preparação
em vista da Páscoa, é um caminho que nós fazemos com Cristo em direção a
Jerusalém para com Ele e n’Ele celebrarmos nossa Páscoa, que é Ele mesmo se
dando por nós na Cruz e Ressuscitando para permanecer conosco.
Então,
entendendo que este tempo é um caminho, vamos juntos ver alguns passos que
podem nos ajudar a trilharmos esta via nova (Cf. Is 43, 18ss) que Deus abre no
nosso ano para nos ajudar a ser mais d’Ele no amor.
O Primeiro
passo é entender que a Igreja já nos dá os propósitos para bem vivermos este
tempo, que são: reconciliação, oração, jejum, penitência, esmola, conversão. Os
nossos propósitos devem ser um desdobramento desta experiência que a Igreja nos
indica. O coração da nossa atividade espiritual neste tempo tem que ser viver
uma oração profunda, um jejum que nos liberte e a esmola que nos abre ao
próximo. Este caminho se propõe a nos ajudar a nos relacionarmos de modo
correto com Deus (oração), conosco mesmo (jejum) e com o próximo (esmola). Sem
isso, corremos o risco de sermos apenas pessoas que se impõe um peso durante um
tempo determinado e que tem uma força de vontade suficiente para o levar a
cabo, mas isso não gera conversão. No interior da Comunidade estamos
partilhando uma mesma direção que nos diz:
Deus nos livre de termos
na Comunidade muitos “heróis na vontade”, que por sua própria capacidade ficam
um longo tempo sem consumir ou fazer o que gostam, e chamam isso de
mortificação! Desses, Deus nos defenda, pois mortificação verdadeira é aquilo
que o Espírito me dá viver ao me levar até o cimo do Calvário no qual devo
imolar o Velho em mim, devo matar aquilo que é causa de pecado, devo imolar o
meu Isaac! Mortificação é morrer para tudo o que me afasta de Deus e de sua
Vontade, é ser pregado por vontade própria na Cruz com Jesus para deixar ali,
cravado, o Homem Velho com seus hábitos e renascer para viver a Vida nova do
Ressuscitado. Quaresma não é tempo de mostrarmos como podemos fazer muitas
coisas, é tempo de conversão e conversão exige a morte do velho em nós. Sim, é
preciso tomar a decisão de romper de verdade com o pecado que agita e domina
nossa carne[1].
Daí, nasce o
segundo passo: a mortificação. Os nossos propósitos são geralmente visando a
mortificação, mas eles realmente nos mortificam?
Sabemos que a vida espiritual tem dois
pilares: a Oração e a mortificação. Santa Teresa ensina que a oração que mais
santifica é a oração de união com Deus. No caso da mortificação, ela é por
natureza essa oração de união com Deus corporal, pois que por ela nos unimos a
Cristo na Cruz, completando na nossa carne o que falta na Paixão do Filho de
Deus, sofrendo como seu corpo, que somos pelo batismo.
Onde não há mortificação e penitência
não há santidade e não há virtudes, por isso a mortificação é muito recomendada
no nosso caminho de conversão constante e de santificação. Mas mortificar-se
não é cultivar dor por dor. Sim, mortificar significa morrer, morrer para o
pecado e para a concupiscência, experimentando já aí a alegria da vitória de
Cristo Ressuscitado que nos associa a si.
A
mortificação é uma luta que travamos contra as nossas más tendências, é uma
luta para fazer o que Deus quer que eu faça. Ela me torna mais dócil a me
deixar conduzir pelo Espírito, por isso é tão difícil fazer a mortificação. É mais difícil que sofrido fazer
mortificação. O que importa é o amor e a fidelidade, não o tamanho da
mortificação. Existem dois tipos de mortificação:
a) Mortificação ativa: são aquelas que eu
escolho, por amor a Deus; elas podem ser: corporais (jejum, acordar mais cedo
pra rezar, vigílias, redução de alimentos,...) e espirituais (fazer algo para
vencer um defeito, por exemplo, falar bem de quem eu costumo falar mal);
b) Mortificação passiva: são aquelas que
Deus escolhe pra mim (chuva quando eu esperava um dia de Sol, perder o ônibus,
doença, morte de alguém, um patrão ou colega chato) e que eu abraço por amor a
Ele sem reclamar e sem perder a paz.
O terceiro
passo é tomar a consciência que não é a nossa boa vontade e nossa mortificação
que nos converte, mas sim a graça de Deus; tomar a consciência de que não
podemos descartar a graça de Deus. Portanto, neste tempo é bom voltarmos muitas
vezes a Confissão Sacramental e a direção espiritual. Além disso, é um tempo
oportuno para que revisemos o nosso plano de oração pessoal diário: rezar e
estar na presença de Deus é uma necessidade vital para nós. É na oração que
Deus gera em nós, pelo Espírito, as atitudes e os sentimentos de Cristo.
Junto a oração
pessoal, deve ganhar espaço em nossa vida quaresmal a Palavra de Deus, pela
Lectio Divina, e a Santíssima Eucaristia, nosso céu. Sim, na quaresma, é uma
fonte de graças ganharmos tempo aos pés de Jesus Sacramentado em Adoração
tranqüila e silenciosa, permitindo que Ele vá desenhando em nós suas marcas de
amor e de verdade. Quem sabe, não podemos também aumentar a nossa freqüência de
participação da santa missa? Lembremos que ela é a fonte e o ápice de toda a
vida cristã, onde o Doador se Dom para nós...
Chegamos,
então, a um momento decisivo de nossa quaresma. Já estamos bem próximos da
páscoa. É preciso parar, estar com Deus na sinceridade de nosso coração, para
tomarmos fôlego em nossa caminhada, uma vez que não nos importa terminar mais
uma quaresma e sim nos convertemos, nos prepararmos para com Cristo morremos na
cruz para o pecado e o mundo a fim de ressuscitarmos com Ele para a vida nova
dos filhos de Deus.
Que a Virgem
Maria nos conduza neste caminho quaresmal, Ela que é o Monte e a Educadora das
almas.
[1]
Mensagem interna para a quaresma de 2012 da Comunidade Ostensório Vivo.
Pedro Paulo Rodrigues é Seminarista, membro consagrado e fundador da Comunidade Ostensório Vivo.


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